Quem é contra e quem é a favor de atos golpistas? Depende da pergunta
Atlas e Datafolha
Quem é contra e quem é a favor de atos golpistas? Depende da pergunta
Quase ninguém aprova vandalismo, mas, para muitos, embora não a maioria, incitar golpe militar passou a ser "ok"
Publicado em 12 de Janeiro de 2023 às 08:12
Públicado em
12 jan 2023 às 08:12
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Apoiadores de Bolsonaro invadem prédios na Praça dos Três Poderes em BrasíliaCrédito: Lucas Neves/Agência Enquadrar/Folhapress
Uma turba invadiu as sedes dos Três Poderes em Brasília no último domingo (8). A reivindicação era uma só: "intervenção militar" para recolocar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no poder. Ele perdeu as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas bolsonaristas seguem inconformados com a derrota e, para justificar a rebeldia, alegam, sem provas, que houve "fraude" nas urnas.
Entre os golpistas, alguns cometeram atos de vandalismo contra o patrimônio público. Um quadro de Di Cavalcanti esfaqueado, um relógio que pertenceu à Corte de Luís XIV destruído, armas de fogo furtadas e quebra-quebra geral.
"Você se posiciona a favor ou contra os atos de vandalismo em Brasília?", quis saber o Datafolha, que entrevistou 1.214 pessoas com mais de 16 anos na terça (10) e na quarta-feira(11), em pesquisa telefônica por todo o Brasil.
Como resultado, 93% responderam que são contra. Afinal, qualquer pessoa em sã consciência tem repulsa às imagens que mostram pessoas quebrando vidraças e defecando em público.
Para 46%, ainda de acordo com o Datafolha, todas pessoas identificadas pelos atos de vandalismo em Brasília devem ser presas. Outros 26% avaliam que apenas alguns deveriam ser presos. Para 15%, a maioria deveria ser presa e só 9% acham que ninguém deveria ser preso.
Os financiadores também estão na mira do punitivismo dos entrevistados. Mas a pergunta foi: "Pessoas que deram dinheiro e recursos para os atos de vandalismo em Brasília deveriam ser presas ou não?".
A resposta de 77% foi "deveriam ser presos".
Mais de mil pessoas já foram encarceradas no DF, pegas em flagrante nos atos golpistas. Já os financiadores estão sob investigação.
Há outra pergunta curiosa: "Como classificaria o grupo de pessoas que praticou vandalismo em Brasília?". O maior percentual, 30%, escolheu "outro".
Mas, entre as opções apontadas, a que se sobressaiu foi "vândalos", com 18%. Claro, quem pratica vandalismo é quê?
A coluna faz aqui, entretanto, uma reflexão. Com base em dados de outra pesquisa.
A Atlas entrevistou 2.200 pessoas pela internet. A maior parte dos entrevistados estavam na região Sudeste (43,3%) de 8 a 9 de janeiro de 2023. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Não se pode comparar a rigor, ressalte-se, os dois levantamentos numericamente. São metodologias diferentes. Mas pretendo destacar como o teor da pergunta pode resultar em respostas com sentidos diferentes e nem tão animadoras.
De acordo com a Atlas, 53% consideram "completamente injustificada" "a invasão do Congresso Nacional, do Planalto e do STF por apoiadores do ex-presidente Bolsonaro".
A questão, observe-se, foi sobre invasão, não vandalismo. Embora uma coisa tenha levado à outra, semanticamente, são coisas diferentes.
Assim, a reprovação ao ato, neste recorte, foi bem menor que os 93% do Datafolha. E mais: 27,5% acham que a invasão é "justificada em parte". Para 10%, "completamente justificada".
Ou seja, quase 40% não acham grave que pessoas descontentes com o resultado de uma eleição tentem interditar a República para impor sua vontade à força.
Outra detecção preocupante, feita pela Atlas. "Na sua opinião, Lula venceu de fato a eleição (ganhou mais votos que o Bolsonaro)?", foi uma das perguntas feitas aos entrevistados.
Para 56,4%, "sim, ganhou mais votos". Mas 39,7% disseram que "não, não ganhou mais votos".
Isso indica que o "negacionismo das urnas", que não era relevante no país até quatro anos atrás, ganhou adeptos para além dos fãs mais ardorosos de Bolsonaro.
Isso não é ruim apenas para Lula. E é surreal. A democracia pressupõe, basicamente, que quem perde a eleição aceite a derrota. Quem não gostou do resultado do pleito, basta aguardar quatro anos para tentar colocar no poder o político de sua preferência.
Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito e os apoiadores do PT não alegaram "fraude" e tampouco pediram intervenção de quem quer que seja para anular a eleição. Sempre foi assim, com urnas eletrônicas e tudo.
Aliás, essas mesmas urnas elegeram Bolsonaro para a Câmara dos Deputados diversas vezes, assim como alçaram bolsonaristas, em 2022, à chefia de governos estaduais e a cadeiras no Congresso Nacional. Contra esses mandatos, curiosamente, os apoiadores do ex-presidente não se insurgem.
A descrença no sistema eleitoral, ainda que não atinja a maioria da população, é um sinal de deterioração institucional.
O fato de a tentativa de golpe ter sido malsucedida foi uma demonstração de resiliência da democracia brasileira.
E, num primeiro momento, deu força política a Lula. Ele conseguiu reunir apoios de todos os governadores – inclusive dos bolsonaristas –, e dos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal.
Os Três Poderes, atacados, uniram-se após um tempo, no governo passado, em que estavam, muitas vezes, em choque. Foi um ponto positivo.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva caminha com governadores e ministros do Supremo Tribunal Federal em direção à sede da Corte após reunião em BrasíliaCrédito: Reprodução
Se a segurança, capitaneada pela Polícia Militar do Distrito Federal, vacilou no dia 8 de janeiro, agora está reforçada em todo o país. A convocação de um novo ato golpista, para todas as capitais brasileiras, na quarta-feira (11), "flopou", como dizem os jovens.
Ninguém apareceu, desta vez, para pedir "intervenção militar". O STF já havia proibido a interrupção de vias e determinado a identificação e novas prisões de quem atentasse contra o Estado Democrático de Direito.
A consultoria Atlas quis saber também: "Você é contra ou a favor de uma intervenção militar para invalidar o resultado da eleição presidencial?". Entre os entrevistados, 54,1% disseram-se contra. Mas 36,8% são a favor. Não é um percentual irrelevante.
Mas 73,5% são contra "a instalação de uma ditadura militar no Brasil".
Há aí uma boa parcela de desapego aos valores democráticos e também certa ingenuidade.
Há quem imagine que seria possível ocorrer uma "intervenção militar", um golpe, em que os militares, logo em seguida, deixariam o poder tranquilamente. Da última vez durou 21 anos.
Não estamos mais em 1964. E o Brasil, em tese, não é uma republiqueta de bananas, embora apoiadores de Bolsonaro tentem demonstrar o contrário.
Cabe, lembrar, também, um "detalhe" que parece passar despercebido aos que consideram as "manifestações" como direitos inalienáveis dos golpistas. O Código Penal estabelece:
"Tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais: Pena — reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos".
Infelizmente, como cenas e testemunhas do posicionamento de bolsonaristas golpistas em Brasília apontam, tem gente que vive em um mundo paralelo, com "fatos alternativos". É como diz a charge publicada na capa do jornal Le Monde, na França. São contra "a ditadura da realidade".
Charge publicada na capa do jornal Francês Le Monde em 10 de janeiro de 2023Crédito: Reprodução/Le Monde
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.