Ex-secretário de Segurança e ex-prefeito de Colatina foram rifados da disputa pelo Senado. Eles têm mais do que isso em comum
Publicado em 05 de Agosto de 2022 às 02:10
Públicado em
05 ago 2022 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Sérgio Meneguelli, de camisa branca, não fez o gesto que simboliza o número do Republicanos, desanimado, na convenção estadual do partido Crédito: Natalia Bourguignon
Eles também não têm participação orgânica nos partidos aos quais se filiaram e nem ligação sólida com os caciques dessas siglas. Sustentam as pretensões político-eleitorais na visibilidade e popularidade que alcançaram quando nem haviam ingressado nas legendas.
Assim, e em meio a um contexto peculiar, tiveram os planos frustrados pelos próprios correligionários.
O cargo de senador é majoritário, não tem as amarras para impedir a infidelidade partidária, como ocorre com os deputados federais, por exemplo. Se um eleito este ano resolver dar adeus ao partido que o elegeu já no ano que vem, não há nada que a agremiação possa fazer.
Quem não tem identidade ou vínculos sólidos com a sigla torna-se motivo de desconfiança. E uma peça mais fraca na engrenagem partidária é mais fácil de ser removida.
Meneguelli passou por ao menos três partidos antes de aportar no Republicanos: PPS, PSDB e PMDB.
Saiu do MDB (este já havia perdido o "P") em 2020, quando decidiu não disputar a reeleição para a Prefeitura de Colatina, e se filiou à atual sigla.
O ex-prefeito é uma espécie de popstar nas redes sociais, famoso até fora do Espírito Santo por vídeos em que aparece comendo marmita ou pintando bancos de praça.
O Republicanos surgiu como braço da Igreja Universal do Reino de Deus e foi ocupando espaços até se tornar um dos mais relevantes do Centrão na Câmara dos Deputados.
No Espírito Santo, é presidido pelo ex-secretário de Governo da Prefeitura de Vitória Roberto Carneiro, que também já foi secretário de Esportes, no último governo Paulo Hartung (sem partido).
Carneiro é próximo do deputado federal Amaro Neto (Republicanos), do qual foi vice, aliás, quando disputaram a Prefeitura de Vitória, em 2016. Já o secretário-geral do partido no estado é o vereador de Vila Velha Devanir Ferreira, pastor da Universal.
Meneguelli não é historicamente próximo a nenhum deles. E foi até alvo de críticas públicas por parte de Devanir quando o ex-prefeito concedeu uma entrevista dizendo "não ter nada de conservador".
Se Meneguelli não tem uma forte ligação com o partido local, imagine com a direção nacional. E não foi a primeira vítima.
Em 2018, o próprio Amaro era pré-candidato a senador. O plano foi abortado por ordem do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, que queria priorizar a eleição de deputados federais.
Já em relação a Ramalho, ele tem poucos meses de filiação ao Podemos, que é a primeira incursão dele na política partidária.
Quando militar da ativa ele não podia ser filiado. Agora, está na reserva da Polícia Militar. A escolha pela legenda se deu aos 45 do segundo tempo, no prazo final, início de abril.
O Podemos é um partido da base do governador Renato Casagrande (PSB), ao contrário do União. E Ramalho é ex-secretário de Segurança Pública do governo socialista.
O Podemos somente poderia lançar Ramalho ao Senado fora da coligação, de forma avulsa, mas a Executiva estadual do partido, capitaneada por Gilson Daniel, entendeu que não seria bom negócio e que o melhor é priorizar a eleição de deputados federais.
Ramalho também já foi secretário de Gilson Daniel, na época em que este foi prefeito de Viana. Comandou a pasta de Defesa Social.
O deputado estadual Marcelo Santos e o coronel Alexandre Ramalho durante convenção estadual do PodemosCrédito: Letícia Gonçalves
Mas, à exceção do vínculo de trabalho, o militar não tem uma relação enraizada com o Podemos.
Coube ao presidente estadual do partido, em uma conversa com Ramalho na última quarta-feira (3), elencar os motivos de a candidatura ao Senado ser barrada.
Em entrevista à coluna, o coronel disse que tudo o que foi listado poderia ter sido contornado, se a sigla quisesse mesmo garantir a ele o espaço para concorrer.
Também afirmou que ainda não sabe se vai disputar uma vaga na Câmara dos Deputados ou desistir da política partidária. E nem garantiu que vai subir no palanque de Casagrande, abrindo as portas para um afastamento em relação ao socialista.
No Instagram, horas após ser rifado, o coronel postou que "política não é para amadores". E é isso mesmo.
Quem não tem um partido para chamar de seu ou laços fortes com os caciques das legendas, está sempre à mercê da máquina de moer gente.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.