Reajuste ao salário do governador do ES: um veto destinado a ser derrubado
Assembleia Legislativa
Reajuste ao salário do governador do ES: um veto destinado a ser derrubado
Casagrande barrou reajuste de 5% ao próprio salário e aos vencimentos do vice e dos secretários estaduais. A própria base governista na Assembleia, porém, derrubou o veto. Em jogo, estão os contracheques da elite do funcionalismo
Publicado em 20 de Abril de 2023 às 02:10
Públicado em
20 abr 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Plenário da Assembleia Legislativa do Espírito SantoCrédito: Ellen Campanharo/ Ales
O governador Renato Casagrande (PSB) saiu bem na foto ao vetar o reajuste de 5% ao próprio salário e aos vencimentos do vice-governador e dos secretários estaduais. Na justificativa do veto, o chefe do Executivo argumentou que a medida não seria "oportuna", visto que, em dezembro de 2022, a remuneração do governador, do vice e dos integrantes do primeiro escalão já havia sido reajustada em 16,9%.
A própria Casa vai promulgar a lei e o aumento de 5%, igual ao concedido a todos os servidores do governo estadual, vai ser aplicado.
O líder do governo, Dary Pagung e o vice-líder, Tyago Hoffmann, ambos do PSB, não pediram que o veto fosse mantido. Deixaram os deputados livres para votar "de acordo com suas consciências", pois tratava-se de um assunto "de soberania do Parlamento".
"A soberania da Assembleia Legislativa encaminha pela derrubada do veto”, exortou o presidente da Casa, Marcelo Santos (Podemos), ele mesmo um casagrandista.
O chefe do Executivo estadual, na época, Paulo Hartung (MDB), vetou o projeto. Os novos valores entrariam em vigor apenas em janeiro de 2019, após o fim do governo Hartung, portanto.
Em abril de 2018, ele o vice-governador e secretários estaduais já haviam recebido 5% de reajuste, o mesmo que os servidores estaduais.
Logo, naquela ocasião, a própria base aliada também votou para derrubar o veto.
ELITE DO FUNCIONALISMO
Convenhamos que defender publicamente o reajuste do próprio salário, bancado com dinheiro público, não é algo muito popular.
Casagrande já havia sancionado o reajuste de 16,9% em dezembro de 2022. O projeto foi de autoria da Mesa Diretora da Assembleia, mas contava, desde o início, com o endosso político do Palácio Anchieta.
O objetivo não era aumentar o poder de compra do governador, do vice e dos secretários e sim atender a um pleito da elite do funcionalismo.
Os servidores do governo estadual não podem ter remuneração superior ao salário do chefe do Executivo. Quando isso está prestes a acontecer eles sofrem um desconto, o chamado abate-teto.
Coronéis da Polícia Militar, por exemplo, estavam descontentes com essa situação. A solução, então, foi aumentar o salário do governador.
Em relação aos 5%, o enredo é parecido.
Politicamente, não "pegaria bem" para Casagrande receber um novo reajuste em menos de quatro meses. Assim, ele vetou a proposta.
Mas, se o governador não receber, os servidores com os maiores salários também não recebem. E viria aí mais um aborrecimento com os coronéis e auditores, por exemplo.
Foi então que os deputados casagrandistas entraram em cena. Parecendo contrariar o chefe do Executivo, na verdade eles apenas resolveram uma celeuma para ele.
Dos 20 parlamentares que votaram nesta quarta, 18 foram a favor de derrubar o veto. Marcelo Santos, por ser presidente do Legislativo estadual, registrou abstenção.
Apenas Camila Valadão (PSOL), que já havia sido contra o projeto de reajustar o salário do governador, votou para manter o veto.
"Infelizmente, alguns segmentos da imprensa tratam isso como aumento. Não é aumento. É correção inflacionária. Se você não der os 5%, vários servidores, que estão no teto do governador, vão ficar sem essa recomposição inflacionária", defendeu Mazinho dos Anjos (PSDB), um dos autores do projeto, em plenário.
CONVENIÊNCIA E INCONVENIÊNCIA
"O veto não tem argumento jurídico. Foi um veto só de conveniência política", observou Mazinho, que também é presidente da Comissão de Justiça da Assembleia.
Não está errado. Tanto que até o líder e o vice-líder de Casagrande votaram para derrubar o veto.
Assim, a inconveniência política saiu de cena.
O mesmo se pode dizer do caso de 2018.
Não ficaria bem para Hartung se posicionar a favor do reajuste de 12,68% ao salário de governador do Espírito Santo, ainda que ele, em tese, não fosse beneficiado diretamente pela medida, uma vez que não tentou a reeleição. Àquela altura (em maio), não se sabia que o então emedebista optaria por não concorrer a mais um mandato.
"(...) Em decorrência da atual conjuntura econômica do país, com reflexos em nosso estado, não se configura oportuna a decisão de reajustar os subsídios dos agentes políticos a partir de janeiro de 2019 nas proporções apresentadas", escreveu Hartung na mensagem de veto naquela época.
O governo, porém, liberou a base na Assembleia para derrubar o veto do próprio Hartung. "Não seria mais fácil sancionar?", questionou Freitas (PSB), então deputado de oposição, na época. Tecnicamente, sim. Politicamente, não.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.