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Golpismo em Brasília

Troque os personagens e teste seus valores democráticos

Imaginem a cena (fictícia): petistas invadem a sede do governo de São Paulo e tentam impor a renúncia do governador Tarcísio de Freitas e a posse de Haddad. Seria "liberdade de expressão"?

Publicado em 10 de Janeiro de 2023 às 02:10

Públicado em 

10 jan 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Apoiadores de Bolsonaro invadem prédios na Praça dos Três Poderes em Brasília
Apoiadores de Bolsonaro invadem prédios na Praça dos Três Poderes em Brasília Crédito: REUTERS/Adriano Machado
É provável que quebrar tudo nas sedes dos Três Poderes e defecar no Supremo Tribunal (STF) não estivesse nos planos dos que organizaram os atos golpistas que transcorreram em Brasília no domingo (8).
Como as cenas são indefensáveis, por ingenuidade ou má-fé – a segunda opção é a mais plausível – os bolsonaristas passaram a falar que foram ações de "infiltrados". 
Certamente pessoas que passaram anos fingindo-se de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) somente para fazer necessidades fisiológicas na Suprema Corte em 2023. E não usaram o banheiro. 
A tese do "infiltrado" também foi usada para rotular o terrorista que colocou explosivos em um caminhão e que, por pouco, não provocou uma tragédia.
No fundo, os apoiadores do presidente sabem que são seus irmãos de ideologia que fizeram tudo isso. 
"Ah, mas e o PT? E o Lula?". O partido perdeu quatro disputas à Presidência da República: em 1989, 1994 e 1998, com Luiz Inácio Lula da Silva, e em 2018, com Fernando Haddad.
Em nenhuma dessas ocasiões simpatizantes do derrotado alegaram "fraude" nas urnas, pediram golpe e tampouco invadiram e depredaram prédios públicos.
O PT cometeu erros quando ganhou? Sim. 
Mas estamos falando aqui de um atentado contra o Estado democrático de direito e de pessoas que querem a implantação de uma ditadura militar. 
Uma coisa não autoriza a outra.
É até constrangedor escrever tais palavras em pleno século 21. E ainda dizem que é "para não virarmos uma Venezuela". Pois estão no caminho contrário.
Na Venezuela as instituições são vilipendiadas e não há democracia. 
Democracia pressupõe aceitar a derrota nas eleições e tentar novamente chegar ao poder no próximo pleito.
Incitar um golpe de estado não é "liberdade de expressão", assim como já registrei aqui que incitar um homicídio não o seria. 
Logo, ainda que não houvesse quebra-quebra, a manifestação antidemocrática já estaria na ilegalidade.
Os orquestradores dos atos pregavam a invasão do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo dias antes, no WhatsApp e no Telegram. 
Talvez quisessem ficar lá um tempo, "pacificamente", como se fosse um ato pacífico interditar a República, na tentativa de pressionar as Forças Armadas a tomar o poder. 
Tudo financiado e nada orgânico, obviamente, como demonstram os ônibus fretados e apreendidos no Distrito Federal.
Se ainda precisam de mais um argumento, imaginem a cena: petistas invadem o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, e tentam impor a renúncia do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a posse de Haddad, que perdeu o pleito em 2022.
Seria "liberdade de expressão?" Se a polícia liberasse o prédio seria a ação de um "estado totalitário"? Para testar seus valores democráticos, sempre substitua os personagens.
A não ser que não tenha tais valores. Golpistas não têm.
ENQUANTO ISSO, NO ES...
Bolsonaristas fora da Praianha
Acampamento de bolsonaristas é desmontado em área do Exército na Prainha, Vila Velha Crédito: Carlos Alberto Silva
Enquanto isso, no Espírito Santo, em atendimento à ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, o acampamento de extremistas – sim, extremistas – em frente ao quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, na Prainha, Vila Velha, foi desmobilizado.
O grupo já havia se dispersado, mas reapareceu na noite de domingo, insuflado pelos atos terroristas perpetrados no Distrito Federal.
Homens do Exército e da Polícia Militar conversaram educadamente com os "manifestantes", que saíram por conta própria antes da chegada dos militares que iriam dispersá-los.
Dois que ficaram para trás em meio ao acampamento vazio foram interpelar a PM, questionando o cumprimento da ordem judicial, e se identificaram como integrantes do movimento golpista. Acabaram presos em flagrante. 
Isso porque Moraes mandou prender em flagrante quem estava nos acampamentos sob a acusação de cometer atos terroristas (inclusive preparatórios, frisou o ministro), de integrar associação criminosa, de tentar abolir de forma violenta o Estado democrático de Direito (golpe de estado), além das práticas de ameaça e incitação ao crime.
Tem gente que achou "pesado". Por dois meses, os golpistas ficaram acampados lá sem serem incomodados. O mesmo ocorreu em outros estados do país. Deu no que deu.
Os presos vão ter direito a defesa e ao rito previsto na legislação. Vão passar por audiência de custódia, em que um juiz vai verificar se estão bem, fisicamente, e analisar as circunstâncias da prisão.
Na pior das hipóteses, graças ao movimento dos direitos humanos, devem encontrar celas em situações menos precárias que as de vinte anos atrás.
Nada disso seria possível sem o Estado democrático de direito, que eles tentam derrubar. Irônico. Mas sem graça.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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