Visita de Bolsonaro ao ES custou R$ 345 mil ao governo federal
Em junho
Visita de Bolsonaro ao ES custou R$ 345 mil ao governo federal
Presidente da República veio ao estado inaugurar casas populares. Ele também realizou sobrevoos e parou para cumprimentar apoiadores
Publicado em 27 de Setembro de 2021 às 02:00
Públicado em
27 set 2021 às 02:00
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Presidente Jair Bolsonaro visita a cidade de São Mateus para entregar casas do Programa Casa Verde Amarela, (antigo Minha Casa Minha Vida), no Residencial São MateusCrédito: Fernando Madeira
Os gastos com transporte terrestre, passagens, telefonia e diárias chegaram a R$ 345.281,49. As informações, da Secretaria-Geral da Presidência da República, foram obtidas por A Gazeta por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Bolsonaro tem feito constantes viagens às unidades da federação em ano pré-eleitoral. É também comum ver o presidente em passeios de motocicleta por aí.
A transparência quanto às despesas provocadas por esses deslocamentos, no entanto, é opaca, com o perdão do trocadilho clichê.
A solicitação feita por A Gazeta, dentro dos preceitos da LAI, apontava que os dados relativos à visita ao Espírito Santo deveriam ser fornecidos de acordo com as categorias: transporte, hospedagem e alimentação e custos adicionais. Em resposta, o órgão disse apenas que os gastos totais foram da ordem de R$ 345.281,49, sem especificar como a verba foi empregada.
O valor empenhado na vinda de Bolsonaro ao Espírito Santo somente foi divulgado após a interposição de um recurso. Em uma primeira resposta, a Secretaria-Geral da Presidência alegou impossibilidade do compartilhamento das informações, afirmando que a prestação de contas do mês de junho ainda não havia sido processada.
A solicitação foi enviada no dia 4 de julho. A resposta parcial, encaminhada no dia 9 de agosto. Foram 35 dias para a conclusão do processo.
Por outro lado, a resposta a uma manifestação elaborada em março deste ano, também por A Gazeta, a respeito da visita de Michel Temer (MDB) ao Espírito Santo, que ocorreu em março de 2018, quando ele presidia o país, chegou rapidamente. Foram 15 dias entre o pedido de informações e o envio dos dados por parte do governo Bolsonaro. E, desta vez, de forma detalhada.
VISITA DE TEMER CUSTOU R$ 70 MIL
De acordo com o informado pela Secretaria Especial de Administração da Secretaria-Geral da Presidência da República, a viagem de Temer para a inauguração do Aeroporto de Vitória, no dia 29 de março de 2018, teve um custo total de R$ 70.186,43.
A visita de Michel Temer foi mais curta que a passagem de Jair Bolsonaro. O emedebista ficou no Espírito Santo por menos de três horas. Às 11h,o avião que trouxe Temer pousou em solo capixaba. Às 13h45, a aeronave decolou de volta para Brasília. O presidente discursou por cerca de 12 minutos.
Somente com transporte, a despesa foi de R$ 35.470,53. O deslocamento aéreo é de responsabilidade da Força Aérea Brasileira, por isso não foi contabilizado. A hospedagem teve um custo de R$ 13.618,50; a alimentação, R$ 18.597,40. Houve um custo adicional de R$ 2.500,00 relacionado a serviços de telecomunicações.
Assim como as casas inauguradas em São Mateus por Bolsonaro, a obra do Aeroporto de Vitória foi iniciada por governos anteriores. Foram 16 anos até que o novo aeroporto ficasse pronto.
Outra semelhança entre as visitas de Temer e Bolsonaro foi a ausência do governador capixaba. Em 2018, Paulo Hartung (então filiado ao MDB) comandava o Palácio Anchieta.
Deputados capixabas da base aliada, no entanto, estiveram com o presidente na visita, além dos filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro. O ex-senador Magno Malta também integrou a comitiva.
O presidente veio ao estado para inaugurar 434 casas populares em São Mateus. As chaves foram entregues após uma cerimônia em que ele defendeu medicamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid-19 e falou em "garantia de liberdade" pelas Forças Armadas.
Após um novo contato com apoiadores, Bolsonaro voltou para a capital. Às 17h20, decolou do Aeroporto de Vitória com destino a São Paulo.
VIA CRÚCIS
A Lei de Acesso à Informação permite a qualquer pessoa, seja física ou jurídica, jornalista ou não, solicitar informações públicas das esferas municipais, estaduais e federal. A LAI foi promulgada em 2011. Há prazos para envio de respostas, com oportunidade de recurso caso o recebido não esteja condizente com o solicitado.
Os pedidos devem ser respondidos em até 20 dias, contando finais de semana e feriados. Se necessário, o órgão pode prorrogar o limite por mais dez dias, chegando a um prazo de 30 dias. A prorrogação requer justificativa, que fica disponível ao solicitante.
Caso o pedido não tenha sido respondido de maneira adequada, é possível apresentar recurso. É uma maneira de insistir na solicitação, como foi o pedido em relação à passagem do presidente Bolsonaro pelo Espírito Santo.
O pedido em questão foi registrado no dia 4 de julho de 2021. Em 26 de julho, ou seja, mais de 20 dias após a solicitação, a Secretaria-Geral da Presidência da República alegou "necessidade de levantamento de subsídios", prorrogando o pedido até 5 de agosto.
Antes da data final, em 3 de agosto, o requerimento foi encaminhado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República para a Secretaria-Geral da Presidência da República. Imediatamente após o encaminhamento, o prazo foi reiniciado. Mas poucos minutos depois, ainda em 3 de agosto, o Gabinete Pessoal do Presidente da República enviou uma resposta sem informações sobre os gastos.
"Informamos a impossibilidade de atender ao pedido na parte referente aos gastos da viagem, uma vez que as prestações de contas do período de 26/05 a 25/06/2021, relativas às viagens realizadas nesse período ainda não foram processadas", diz o registro.
De acordo com a resposta, os dados estariam disponíveis após o 1º dia útil de agosto, o que seria um tempo médio necessário para a realização da conformidade dos gastos da referida viagem.
No dia seguinte ao recebimento da primeira resposta, em 4 de agosto, A Gazeta reforçou o pedido, registrando recurso em 1ª instância.
A resposta ao recurso, ou seja, a segunda manifestação do governo, aconteceu no dia 9 de agosto, quando A Gazeta teve acesso aos gastos do presidente Jair Bolsonaro em visita ao Espírito Santo. Foram 35 dias entre o envio do pedido e o recebimento da resposta, ainda que parcial e não segregada por categoria.
Além do custo total da viagem do presidente Jair Bolsonaro, gostaríamos de saber o nome e o cargo de todos os integrantes da comitiva. A informação, segundo o Gabinete de Segurança Institucional, é classificada com grau de sigilo reservado, por isso não foi divulgada. Também não houve resposta, por questões de sigilo, ao requerimento sobre gastos com transporte aéreo.
GOVERNO NÃO JUSTIFICOU GASTOS E NÃO EXPLICOU DEMORA
A Gazeta demandou, via assessoria de imprensa, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Foram questionados a justificativa para o valor empenhado para a viagem e a diferença de tempo entre as respostas envolvendo Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Não houve qualquer manifestação sobre a despesa envolvendo a vinda de Bolsonaro ao estado, tampouco sobre a demora para envio de informação via LAI.
* Esta apuração, excepcionalmente, contou com a colaboração de Alberto Borém. Estagiário não faz apenas post engraçadinho nas redes sociais, não. Aliás, nem são os estagiários que fazem as postagens.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.