Festa de São Pedro: como surgiu a procissão marítima na Praia do Suá?
Vitória
Festa de São Pedro: como surgiu a procissão marítima na Praia do Suá?
Pescadores portugueses e suas famílias, em uma colônia, desenvolveram o bairro e o transformaram em um destino perfeito para aqueles que buscavam um bom peixe fresco, um restaurante de moquecas e, principalmente, manifestar a fé em São Pedro
Publicado em 26 de Junho de 2025 às 05:01
Públicado em
26 jun 2025 às 05:01
Colunista
Marcus Vinicius Sant'Ana
marcus.historia.es@gmail.com
Em Vitória há um povo que vive em um mundo encruzilhado e cheio de significados. E nele a cidade tem um guardião. Ele é o dono da chave da cidade e, uma vez ao ano, paira sobre as águas da baía, sendo exibido ao mundo pelos seus devotos, em ocasião que figura entre os mais belos espetáculos citadinos do país.
Tudo começou em Portugal, mais precisamente em Póvoa de Varzim, um distrito do Porto, quando um grupo de pescadores e suas famílias decidiram buscar novos mares, pois as águas da região eram agitadas demais para a pesca. Tomaram o Atlântico e aportaram em terras capixabas. Capixabas mesmo! O primeiro ponto de parada foi na região da Capixaba, no Centro de Vitória. O local, porém, era distante da saída para o mar aberto e a turma de Portugal novamente levantou as redes e aportou em outro lugar.
Dessa vez, uma região que, para a época, início do século XX, era uma área afastada da cidade, composta de belas praias, vegetação virgem e cotidiano bucólico, conhecido como “Do Suá”. A origem do nome tem três versões: que vem do verbo “suar”, em alusão ao tanto que se precisava andar para chegar até o local; de uma corruptela de “suam”, um pássaro muito comum na região; e da prática de um professor de francês que, encantado pelo lugar, passava pelas pessoas e dava um “bon soir”, "boa noite" em francês, cuja última palavra é pronunciada “suá”. Como o local já era citado como “Do Suá” em tempos remotos e analisando a origem dos nomes de outros bairros como Jucutuquara, Tabuazeiro e Maruípe, é bem provável que o topônimo venha mesmo do pássaro suam, um batismo dos povos originários, movidos pela sua estreita relação com a natureza.
Festa de São Pedro: procissão marítima é marcada por devoção e féCrédito: Ricardo Medeiros
Os pescadores portugueses e suas famílias, emuma colônia, desenvolveram o bairro e o transformaram em um destino perfeito para aqueles que buscavam um bom peixe fresco, um restaurante de moquecas e, principalmente, manifestar a fé em São Pedro.
A ligação do santo com os pescadores é bastante eminente. Em vida, Pedro foi um pescador, sendo natural a devoção a ele entre os homens do mar. E com os de Varzim não foi diferente. Uma imagem do santo veio de Portugal com as famílias como objeto essencial de sobrevivência e aqui encontrou terreno fértil para festejos sagrados e fé efusiva. Uma pequena capela destinada a ele foi construída logo na chegada e, para melhorar as condições e instalações do templo, uma festa passou a ser celebrada aos 29 de junho. Começou pequena, essencialmente junina, com direito a todos os elementos tradicionais do estilo e, principalmente, comunitária, tendo como os únicos propósitos o fortalecimento da comunidade e a devoção alegre ao santo dos mares.
Diferentemente das outras manifestações da cidade, as origens pesqueiras e portuguesas se manifestavam nos segmentos da festa. As moças se vestiam de portuguesas, alguns moleques se fantasiavam de pescadores e a procissão do santo começava em terra, mas tinha como momento chave o cortejo no mar!
Tais particularidades e traços únicos atraíram os olhares de toda cidade e o evento entrou no calendário da cidade. Contínuo crescimento fez com os festejos rompesse com seus ideais comunitários e ganhasse ares de grandes eventos, com atrações nacionais, grandes instalações e até mudança de local.
Atualmente, ainda mantém algumas tradições e a principal acontece no terceiro dia de festa, o domingo, quando acontece uma missa na igreja do santo, finalizada com a procissão que sai do templo e vai até o cais da Enseada do Suá, cercada pelos fogueteiros, fiéis da comunidade que saúdam o santo com fogos e rojões. No cais acontece a benção dos anzóis, quando os instrumentos dos pescadores são abençoados e lançados ao mar. O santo, no andor e dentro de uma miniatura de barco, é posicionado na embarcação oficial e toma as águas, seguido de centenas de embarcações, algumas decoradas, outras com música, outras com churrasqueiras improvisadas, transformando o mar de Vitória em uma avenida de cruzamentos entre o sagrado e o profano.
Procissão marítima da Festa de São Pedro em 2023Crédito: Fernando Madeira
Em terra, debruçados pelos parapeitos ao longo da Beira-Nar, aqueles que não gozam do privilégio de acompanhar o cortejo sobre as águas aguardam a passagem de São Pedro e o recente fechamento das avenidas costeiras aos domingos proporciona um maior conforto. Na Curva do Saldanha, um imenso foguetório é feito, como saudação sonora da cidade ao santo que a guarda.
De volta à terra, o espetáculo não está findado. A Banda de Congo Amores da Lua recepciona recepciona e conduz o andor até a igreja. Mais precisamente até ao altar, quando ele adentra o templo triunfalmente ritmado por tambores, casacas e cantos das cantadeiras louvando o santo pesqueiro.
Entre foguetórios, lágrimas e súplicas, o posicionamento de São Pedro no altar simboliza o fim de mais uma celebração vitoriense, em um misto de euforia e lamento. Lamento, obviamente, pelo fim de uma das mais belas e tradicionais manifestações da cidade; euforia pela materialização de mais uma edição realizada em tempos de perseguição às culturas e manifestações populares sincretizadas.
Digo sempre e repetirei enquanto puder que celebrações coma a de Santo Antônio, São Benedito, São Pedro, Iemanjá, São Jorge, festas juninas, congadas, brincadeiras de bois e tudo mais que nasceu da interpretação popular daquilo que não era pra ser do povo anseiam do apoio e mobilização daqueles que entendem a tradição e a cultura como elementos vitais para a sobrevivência de uma parcela da população e, principalmente, para a formação de uma sociedade decente.
Aqueles de boa-fé - e aqui não me refiro à religião - devem ir às margens da baía no próximo domingo, presenciar a passagem do santo dos pescadores, guardião da cidade e portador das memórias de uma Vitória popular.
Programação da festa:
27/06 - Sexta-feira
19h - Pagode e Cia
21h - Ciel Rodrigues
28/06 - Sábado
18h - Apresentação de quadrilha
19h - Carol & Priscila
21h - Alemão do Forró
29/06 - Domingo
8h - Missa na Igreja São Pedro
9h - Procissão terrestre da igreja São Pedro até a Praça do Papa.
10h - Procissão Marítima.
13h - Eduardo Santos (show na praça de alimentação).
14h30 - Suelen Nascimento (show na praça de alimentação).
16h - DJ Lukão (show na praça de alimentação).
Fontes bibliográficas:
Praia do Suá - Coleção Elmo Elton. José Carlos Mattedi.
Festa de São Pedro na Praia do Suá. Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco.
Marcus Vinicius Sant'Ana
É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano