Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Cotidiano

Crônica: A função da fantasia

Em primeiro lugar a fantasia reconhece que há sim uma falta, mas ela imediatamente aponta uma saída: ela apresenta um “objeto” (de desejo) para tornar suportável a dor da falta

Publicado em 08 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

08 mai 2022 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

marysnt@hotmail.com

mulher olhando a janela
E todo desejo é um desejo do outro, o desejo de ser desejado, de ser novamente tomado Crédito: Shutterstock
– Você conhece sua fantasia?
Essa pergunta pode ser muito íntima, ou só psicanalítica.
“A festa como jogo é um autorretrato da vida. Sua característica é assinalada pelo excedente... A expressão da extravagância é a forma intensiva da vida. Na festa ela se refere a si mesma, não se subordina.” (Byung-Chul Han)
Gosto de propor festas à fantasia como terapêutica. É, como uma vivência de autoconhecimento... (Fantasio essa possibilidade porque faz parte da minha essência, do meu núcleo rígido fundamental, a busca pela alegria.)
Nota de abertura: essa é uma crônica sobre a possibilidade de fazer bom uso das nossas fantasias.
Vou começar chutando a porta: é tudo uma grande fantasia!
(Tanto a sua quanto a minha.)
Assim, ó: temos todos e cada um de nós, um núcleo rígido chamado “fantasia fundamental” – que foi gerado para tamponar nossa falta elementar...
Explico.
Como se sabe, ser humano é ser esburacado (desde o nascimento). Chegamos ao mundo sentindo a dor da falta (de completude), que vai se ampliando com uma sequência de separações que desfazem a plenitude inicial... Aquela, da simbiose com nossa mãe.
Se em um instante estávamos plenos no útero, literalmente grudados nessa mulher, no instante seguinte somos expelidos. Ok, depois abocanhamos o peito dessa mãe, e sugamos esse vínculo, até que vem a mamadeira; depois queremos o colo dela, mas vem a hora da escola, queremos o abrigo e a plenitude do amor simbiótico, mas o que a vida impõe são pequenas e sucessivas separações.
E são essas separações que geram “a falta”.
E essa famigerada falta faz nascer em nós um combustível elementar chamado “desejo”. Nota: E todo desejo é um desejo do outro, o desejo de ser desejado, de ser novamente tomado. De voltar a ser o objeto de desejo do outro (mas essa é outra história).
Voltando, o desejo aponta sempre uma falta. O desejo chora, esperneia e reclama a falta! E é a partir dessa mecânica perfeita e sofisticadíssima, chamada psique, que nasce em nós a salvação... É aí que ela chega... A fantasia.
A fantasia comparece! Ela surge na nossa psique como uma salvação, como a possibilidade de estancar o sofrimento produzido pela falta.
Em primeiro lugar a fantasia reconhece que há sim uma falta, mas ela imediatamente aponta uma saída: ela apresenta um “objeto” (de desejo) para tornar suportável a dor da falta.
A fantasia produz e localiza um objeto através de palavras e imagens, ela inventa um contexto, símbolos, sons, cheiros...
E é exatamente por isso que o real e a realidade psíquica são coisas bem diferentes. A realidade individual, a forma como vemos o mundo é essencialmente da ordem fantasia. Pronto, falei.
O amor romântico é uma fantasia... A forma como nos relacionamos com o outro é da ordem da fantasia inconsciente. Assim como nossos projetos de vida são essencialmente frutos e desdobramentos da nossa própria fantasia.
Fantasia essa que altera nossa percepção do mundo.
Claro! A percepção é sempre traduzida pelo desejo: por isso vemos o que queremos e não vemos o que não queremos.
O núcleo duro, ou nossa fantasia fundamental, tenta como pode nos proteger do real montando e remontando a fantasia.
Mas, atente, isso pode produzir uma certa prisão, pois é esse o lado patogênico da fantasia: a fixação no objeto que nos restringe. Que nos impede de ver e viver a vida com amplitude.
Por isso, atravessar a fantasia, fazer bom uso dela é deter a possibilidade de resgatar e conhecer os elementos fundamentais que nos constituíram como sujeito. Que são exatamente aqueles que nos aprisionam e nos domesticam, que nos viciam, geram apego, e nos fazem repetir inúmeras vezes o mesmo ciclo.
Por isso entender dela é pode se libertar dela. É, como diz a velha canção, ter a opção de levar o personagem pra cama, ou não. É sair da prisão para o regime semiaberto.
De verdade, proponho a fantasia na festa do real para me aproximar de mim mesma... Para experimentar a vida de forma intensiva.
Ser carne de Carnaval é uma forma de estancar a dor, e se como nação somos a terra do Carnaval, então é porque há e sempre houve muita falta para tamponar.
Finalmente, a função da fantasia é nos salvar! Mas é preciso conhecê-la para aprender a servir-se dela. Do contrário, ela vem nos domesticar.
Era isso que eu queria falar.
Um beijo,
Bom domingo,
Feliz dia Das Mães!

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Fernanda Queiroz, apresentadora da CBN Vitória
CBN Vitória celebra 30 anos com programa "Fim de Expediente" ao vivo da Rede Gazeta
Imagem de destaque
Canhão de caça e fuzil estão entre as onze armas apreendidas por dia no ES
Imagem Edicase Brasil
Como um deserto famoso pode inspirar o turismo no ES

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados