– Você conhece sua fantasia?
Essa pergunta pode ser muito íntima, ou só psicanalítica.
“A festa como jogo é um autorretrato da vida. Sua característica é assinalada pelo excedente... A expressão da extravagância é a forma intensiva da vida. Na festa ela se refere a si mesma, não se subordina.” (Byung-Chul Han)
Gosto de propor festas à fantasia como terapêutica. É, como uma vivência de autoconhecimento... (Fantasio essa possibilidade porque faz parte da minha essência, do meu núcleo rígido fundamental, a busca pela alegria.)
Nota de abertura: essa é uma crônica sobre a possibilidade de fazer bom uso das nossas fantasias.
Vou começar chutando a porta: é tudo uma grande fantasia!
(Tanto a sua quanto a minha.)
Assim, ó: temos todos e cada um de nós, um núcleo rígido chamado “fantasia fundamental” – que foi gerado para tamponar nossa falta elementar...
Explico.
Como se sabe, ser humano é ser esburacado (desde o nascimento). Chegamos ao mundo sentindo a dor da falta (de completude), que vai se ampliando com uma sequência de separações que desfazem a plenitude inicial... Aquela, da simbiose com nossa mãe.
Se em um instante estávamos plenos no útero, literalmente grudados nessa mulher, no instante seguinte somos expelidos. Ok, depois abocanhamos o peito dessa mãe, e sugamos esse vínculo, até que vem a mamadeira; depois queremos o colo dela, mas vem a hora da escola, queremos o abrigo e a plenitude do amor simbiótico, mas o que a vida impõe são pequenas e sucessivas separações.
E são essas separações que geram “a falta”.
E essa famigerada falta faz nascer em nós um combustível elementar chamado “desejo”. Nota: E todo desejo é um desejo do outro, o desejo de ser desejado, de ser novamente tomado. De voltar a ser o objeto de desejo do outro (mas essa é outra história).
Voltando, o desejo aponta sempre uma falta. O desejo chora, esperneia e reclama a falta! E é a partir dessa mecânica perfeita e sofisticadíssima, chamada psique, que nasce em nós a salvação... É aí que ela chega... A fantasia.
A fantasia comparece! Ela surge na nossa psique como uma salvação, como a possibilidade de estancar o sofrimento produzido pela falta.
Em primeiro lugar a fantasia reconhece que há sim uma falta, mas ela imediatamente aponta uma saída: ela apresenta um “objeto” (de desejo) para tornar suportável a dor da falta.
A fantasia produz e localiza um objeto através de palavras e imagens, ela inventa um contexto, símbolos, sons, cheiros...
E é exatamente por isso que o real e a realidade psíquica são coisas bem diferentes. A realidade individual, a forma como vemos o mundo é essencialmente da ordem fantasia. Pronto, falei.
O amor romântico é uma fantasia... A forma como nos relacionamos com o outro é da ordem da fantasia inconsciente. Assim como nossos projetos de vida são essencialmente frutos e desdobramentos da nossa própria fantasia.
Fantasia essa que altera nossa percepção do mundo.
Claro! A percepção é sempre traduzida pelo desejo: por isso vemos o que queremos e não vemos o que não queremos.
O núcleo duro, ou nossa fantasia fundamental, tenta como pode nos proteger do real montando e remontando a fantasia.
Mas, atente, isso pode produzir uma certa prisão, pois é esse o lado patogênico da fantasia: a fixação no objeto que nos restringe. Que nos impede de ver e viver a vida com amplitude.
Por isso, atravessar a fantasia, fazer bom uso dela é deter a possibilidade de resgatar e conhecer os elementos fundamentais que nos constituíram como sujeito. Que são exatamente aqueles que nos aprisionam e nos domesticam, que nos viciam, geram apego, e nos fazem repetir inúmeras vezes o mesmo ciclo.
Por isso entender dela é pode se libertar dela. É, como diz a velha canção, ter a opção de levar o personagem pra cama, ou não. É sair da prisão para o regime semiaberto.
De verdade, proponho a fantasia na festa do real para me aproximar de mim mesma... Para experimentar a vida de forma intensiva.
Ser carne de Carnaval é uma forma de estancar a dor, e se como nação somos a terra do Carnaval, então é porque há e sempre houve muita falta para tamponar.
Finalmente, a função da fantasia é nos salvar! Mas é preciso conhecê-la para aprender a servir-se dela. Do contrário, ela vem nos domesticar.
Era isso que eu queria falar.
Um beijo,
Bom domingo,
Feliz dia Das Mães!