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Sem preconceito

Uma criança e muitas lições

Observei um menino que deveria ter seus quatro aninhos, pulando, sacudindo as mãos, vez ou outra soltava um grito, e corria de um lado a outro. Em dois momentos, parou em frente a minha cadeira, sem olhar para mim, mas fixado nas minhas rodas que acendiam devido à fricção

Publicado em 29 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

29 mar 2022 às 02:00
Mariana Reis

Colunista

Mariana Reis

marianabreis@gmail.com

criança no aeroporto
A criança e sua curiosidade natural se permitiam admirar com o mesmo encantamento a minha cadeira e o avião parado no pátio Crédito: Shutterstock
Aguardava para viajar naquelas salas de embarque que mantém suas características estressantes: vai e vem de funcionários apressados para não falhar no controle dos passageiros, voz alta no microfone sempre para mudar o portão, ar refrigerado que pouco refrigera e um aglomerado de gente com olhares e destinos aleatórios.
Ao folhear um livro, meio sem saber se com tamanha movimentação da sala de embarque seria capaz de me concentrar nele, senti meus olhos se desviarem das páginas e ir para bem próximo de mim. Observei um menino que deveria ter seus quatro aninhos, pulando, sacudindo as mãos, vez ou outra soltava um grito, e corria de um lado a outro. Em dois momentos, parou em frente à minha cadeira, sem olhar para mim, mas fixado nas minhas rodas que acendiam devido à fricção. Era eu me mexer para ele grudar os olhos nas luzinhas coloridas perto dos meus pés.
Curiosidade: nada mais natural
A criança e sua curiosidade natural se permitiam admirar com o mesmo encantamento a minha cadeira e o avião parado no pátio, também com suas luzes atraentes. Eu sentia a sua imaginação fluir mesmo sob os olhares e preocupações da sua mãe. Eu também a observava. Aquela criança, tão criança, demonstrava felicidade, dúvidas, medo, ansiedade igual a qualquer outra que viaja pela primeira vez de avião. Era contagiante a sua alegria misturada com outras camadas de sentimento.
Na verdade, era uma energia que vibrava e que conseguia quebrar por instantes o tormento e os protocolos de uma chatíssima sala de embarque. Não muito longe dali estava a sua mãe que monitorava cada movimento do filho. O “não pode” repetidas vezes era refrão. E foi num rompante que tratou de anunciar em alto e bom-tom a todos ali que se distraiam com a criança: “ele tem autismo”. Ao ouvir, com surpresa e confusão, senti meu coração dar um salto e muitas coisas passaram em minha cabeça. Uma delas foi que, para mim, não fez nenhuma diferença a respeito da criança feliz que estava na minha frente.  No entanto, também fiquei imaginando que, para os “desavisados”, esses que a partir daí vão estabelecer um estigma para essa criança com base na fala da mãe, “quebrando” todo aquele encanto inocente que se propagou no ambiente. 
Somos capazes
Reconheço a atitude da mãe em proteger seu filho dos olhares cruéis, mas minha vontade era de acolher esse medo num abraço e dizer a ela que não precisamos justificar nada sobre sermos diferentes, e olho no olho, fortalecer nossas lutas. Pessoas com deficiência deparam-se frequentemente com o "não", palavra curta e forte. O "inventário do não" parece ser feito de maneira tão instantânea; basta um olhar e lá vêm as frases fatídicas: "não pode", "não vai dar certo", "não faça". Assim, o limite ou a dificuldade que a pessoa tem – ou que o outro acha que ela tem, melhor dizendo – é reforçado e aumentado, pois recebe o peso do descrédito ou da negação de sua capacidade.
Qual nosso papel na sociedade?
Naquele dia embarquei, mas a viagem ficou ali naquela sala. Fechava os olhos e rememorava cada frase da mãe.  Embora avancemos nos tratamentos e ações, fica a pergunta: como estão sendo acolhidos os pais e mães de crianças com autismo nesse processo de inclusão? O próximo sábado, 2 de abril, é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, um bom momento para pensarmos sobre a discriminação e o preconceito contra os indivíduos que apresentam o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sobre qual nosso papel na construção de uma sociedade mais inclusiva.
Quero terminar o texto de hoje reforçando a minha homenagem aos profissionais que se mobilizam e trabalham incansavelmente para reverberar o quanto a inclusão plena perpassa pelo respeito à diversidade e pela condição de sujeito de direitos.
Ah, e uma dica muito importante: leia Não sem eles (e sobretudo com eles). Um livro incrível e necessário no campo do autismo. Escrito por pesquisadores do PIPA (e rabiola), Programa de Investigação Psicanalítica do Autismo, do Núcleo de Referência e pelos professores da Rede Municipal de Educação de Vitória.

Mariana Reis

Mariana Reis é mestranda em Sociologia Política, Administradora , TEDex, Colunista e Personal Trainer

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