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Segurança pública

A ineficiência nos torna reféns da violência

Policiais exemplares, que se dedicam incansavelmente ao combate ao crime, recebem as mesmas promoções e salários dos colegas negligentes, como se o esforço e o comprometimento não fizessem a mínima diferença

Publicado em 13 de Novembro de 2023 às 01:00

Públicado em 

13 nov 2023 às 01:00
Nylton Rodrigues

Colunista

Nylton Rodrigues

comando.nylton@gmail.com

Para que a gestão da segurança pública seja verdadeiramente eficaz, é preciso mergulhar de cabeça na compreensão de que a eclosão da violência é reflexo direto do ambiente social em que estamos inseridos e da eficiência dos mecanismos de controle. Essa consciência crucial é a chave mestra para adotarmos medidas assertivas e resolutas, a fim de evitar que nos afoguemos em um oceano de falhas desastrosas. No entanto, vamos ser honestos: estamos naufragando miseravelmente nessa compreensão.
Nossos presídios são verdadeiros formigueiros de pequenos traficantes de cannabis, enchendo as celas até transbordarem. A cada vendedor capturado, outros tantos tomam seu lugar, se multiplicando como uma praga. Por outro lado, os responsáveis por homicídios são raridade entre a população carcerária, compreendendo apenas 11%. Essas instituições prisionais estão longe de cumprir sua missão de ressocializar. A taxa de reincidência no Brasil é simplesmente chocante, com impressionantes 70% dos detentos retornando à sociedade apenas para continuar praticando atividades criminosas.
A evasão escolar persiste em nossa sociedade, roubando dos nossos jovens a oportunidade de forjar um destino digno. Nossas periferias, fervilhando de jovens que não pisam em uma sala de aula nem se esforçam a trabalhar, são um triste reflexo de uma escola pública desanimadora, ineficaz e pouquíssimo atrativa. A evasão escolar, além disso, é um presente para o “mundo do crime”, fornecendo uma mão-de-obra ávida para os desígnios do mal. E, assim, nossas crianças e adolescentes se veem arremessadas na perigosa teia do tráfico de drogas e seus ciclos de vingança.
Nas áreas mais atormentadas pelo flagelo da violência, a paisagem urbana enfrenta uma triste e lamentável condição de precariedade e caos, perpetuando o ciclo perverso de violência e desesperança. Em cada local onde a criminalidade crônica se manifesta, as mazelas do ambiente físico também se revelam. É, portanto, uma injustiça gritante que essa conexão continue a existir sem o necessário e imediato investimento na infraestrutura urbana daquela área, privando comunidades inteiras de uma vida digna.
Os inquéritos policiais concluídos não são suficientes para garantir a justiça aos culpados. Os assassinos parecem habilmente escapar das garras da punição, aproveitando-se da morosidade do sistema judiciário e da falta de investimento nas polícias civis e científicas, responsáveis pela produção das provas necessárias para o processo. É verdadeiramente assustador constatar que apenas 15% dos assassinatos são resolvidos em nosso país, deixando a sensação de impunidade pairar sobre nós como uma nuvem sombria.
No Brasil, mais de 1,2 milhão de armas legais estão atualmente em posse dos cidadãos. Um número que cresceu de forma vertiginosa, aumentando em 65% nos últimos anos. No entanto, o que é verdadeiramente inquietante é que muitas dessas armas, que foram adquiridas de maneira legal, acabam parando nas mãos erradas, por meio de roubos e furtos.
É desconcertante pensar que essas armas, que deveriam proporcionar segurança e proteção, estão, na verdade, contribuindo para o aumento das taxas de homicídio em nosso país. Estudos comprovam que um simples acréscimo de 1% na disponibilidade de armas de fogo resulta em um assustador aumento de 2% nas taxas de assassinatos nas cidades brasileiras. É como se o ditado popular "a arma do crime é a arma do cidadão" estivesse se transformando em uma triste realidade em nossas ruas.
Além disso, para agravar ainda mais a situação, os policiais exemplares, que se dedicam incansavelmente no combate ao crime e elevam a eficiência das instituições policiais, são completamente ignorados. Eles recebem as mesmas promoções e salários dos colegas negligentes, como se todo o seu esforço e comprometimento não fizessem a mínima diferença.
Policiais militares vão reforçar as eleições
Policiais militares Crédito: Divulgação/PM
Parece que estamos premiando a mediocridade e desvalorizando a excelência. É como se estivéssemos dando um tapa na cara da virtude e dando uma medalha de honra ao descaso. Essa situação desmerece os que verdadeiramente produzem, deixando-os desmotivados e desanimados.
Caro leitor, você pode estar se perguntando por que não mencionei a falta de endurecimento da legislação penal como um fator que contribui para um ambiente social propício ao aumento da violência. Mas deixe-me dizer-lhe que essa ideia é uma ilusão. A rigidez das leis penais é tão eficaz no combate à criminalidade organizada quanto um guarda-chuva em um furacão.
É hora de abandonarmos a crença ingênua de que punições mais severas resolverão todos os nossos problemas. Encarar esse desafio exige elevar o nível da inteligência das forças policiais, conduzir investigações minuciosas, investir em educação, gerar oportunidades de emprego e implementar políticas públicas que promovam a inclusão social.
Não se deixe iludir pelas propostas de leis penais mais severas, elas são apenas um embuste. É um discurso político que vende vento, e aqueles que compram esses ventos colhem tempestades, pois quanto maior for a população carcerária vivendo em condições precárias dentro do sistema penitenciário, maior será a criminalidade que teremos que enfrentar. Há uma diferença colossal entre uma repressão penal inteligente e uma punição obtusa e ineficiente.
Para que possamos avançar na luta contra a violência, é crucial compreendermos e aprofundarmos nessas reflexões. Dessa forma, é fundamental que o modelo de gestão foque nos resultados que a sociedade tanto anseia, esquecendo por completo qualquer preocupação com glamour e floreados promocionais vazios de sentido.
O momento exige ações estratégicas cuidadosamente planejadas, em sintonia com uma visão inteligente. Não há espaço para improvisações ou jogos de cena que só buscam os holofotes, sem trazer resultados concretos.
Eu acredito firmemente que podemos vencer a violência, mas isso só será possível se tivermos a coragem de enfrentar suas raízes profundas. É um desafio gigantesco, mas absolutamente necessário. Não podemos mais fugir das causas, pois as consequências terríveis continuarão a nos assombrar.

Nylton Rodrigues

Foi secretário estadual de segurança pública e comandante geral da polícia militar. É especialista em Segurança Pública pela Ufes. Neste espaço, produz reflexões sobre políticas públicas para garantir a segurança da população

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