Mas, afinal, o que são esses ciclos de vingança? Permitam-me contar uma história para ilustrar: durante uma operação policial no bairro Jardim Carapina, em Serra, quando eu comandava o Batalhão PM da cidade (6º BPM), um homicídio ocorreu. Infelizmente, na época, o município apresentava a maior taxa de homicídios entre as cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes.
O bairro estava repleto de policiais militares com o objetivo de arrefecer o número de homicídios, mas, mesmo assim, o assassinato aconteceu. O autor foi capturado imediatamente. Intrigado com a coragem e ousadia do criminoso, perguntei a ele: "O bairro está abarrotado de policiais e mesmo assim você tira a vida de alguém? Explique-me isso".
O traficante, apesar de sua tenra idade na época, respondeu calmamente e com determinação: "Não podia perder a oportunidade de me vingar. Ele sabia disso e também queria me matar. Era ele ou eu". O bairro, outrora um dos mais violentos do Espírito Santo, sofria com ciclos intermináveis de vingança entre quatro grupos rivais que comercializavam drogas ilícitas, principalmente a maconha.
Sim, é isso! O tráfico de drogas gera ciclos de vingança nas comunidades. Alguns desses ciclos começam com um homicídio e perpetuam-se por décadas, resultando em dezenas, até centenas, de outras mortes. Aqueles envolvidos nesses ciclos não têm escapatória, é uma questão de matar ou morrer.
Ao logo dos meus 35 anos de imersão na segurança pública do Espírito Santo, mergulhando de cabeça em desafios e ambientes intricados, vivi experiências que me levaram a concordar firmemente com a tese do jornalista Bruno Paes Manso. Enquanto muitos podem considerar sua pesquisa absurda, eu a acolho.
Como ele habilmente descreve em seu livro "A Fé e o Fuzil: crime e religião no Brasil do século XX", das comunidades marcadas pela miséria, violência e caos familiar, emergiram verdadeiras instituições, cada uma com seu poder de influência e capacidade de transformação.
Por um lado, a igreja exercendo seu poder de influência sobre comportamentos e desejos. Por outro, o crime organizado conduzindo as facções a uma transformação de mentalidade, que o jornalista batizou de "metanoia” - uma jornada de maturidade mental. Essas instituições estabeleceram mecanismos para se autogerir, difundindo novos valores que, surpreendentemente, podem ter contribuído para a redução dos ciclos de vingança.
A estruturação das facções criminosas trouxe consigo uma visão profissionalizada do crime que acabou por interromper, ou ao menos reduzir, a autodestruição dos traficantes que antes ocorria, pondo fim a inúmeros ciclos. Por outro lado, a proliferação das igrejas desconstruiu a ideia de resolver problemas por meio da violência, o que contribuiu para o processo de transformação pessoal de indivíduos desviantes, desmantelando também muitos ciclos de vingança.
Esses dois polos, igrejas e facções criminosas organizadas, acabaram contribuindo fortemente para reformatar a mente das pessoas que viviam aquela realidade, impulsionando novos comportamentos e propósitos, e promovendo então uma mudança de baixo para cima.
É verdadeiramente impactante pensar que, talvez, não tenham sido as políticas públicas e a atuação dos Poderes constituídos as principais responsáveis por essa transformação de comportamento, mas sim uma nova ordem estabelecida pelas instituições paralelas que emergiram da miséria.
É inegável a importância e a relevância da ação estatal em prol de melhorias na vida dos cidadãos, mas nas comunidades afetadas pela miséria são as próprias instituições nascidas desse caos que podem ter gerado as maiores transformações comportamentais.
Portanto, quando me perguntam hoje sobre segurança pública, prefiro desviar o foco das ações policiais e das prisões e direcionar minha atenção para uma área que possui grande poder de transformação: a educação. Na jornada da vida, à medida que acumulamos experiências, nossos olhos se abrem e nossa visão se expande, removendo as vendas que nos limitavam.
E é absolutamente crucial remover essas vendas, meus amigos! Para mim, está claro que a polícia desempenha um papel importante no combate à violência, mas está longe de ser a solução para o problema.
De igual forma, apenas leis severas e punições implacáveis mostram-se tão malfadadas quanto um castelo de areia. Basta observar as prisões superlotadas, verdadeiros multiplicadores de estratégias do crime e de contatos sinistros.
A resposta está em oferecer oportunidades reais para todos, e isso começa com uma educação infantil e básica de qualidade. Educação essa que não engloba apenas as matérias básicas de sala de aula, como português e matemática, mas também esporte, arte, cultura, empreendedorismo e inovação.
Precisamos evitar que o crime exerça influência sobre nossas crianças e adolescentes. Quem deve influenciá-los são as perspectivas de oportunidades. Muitos dos assassinatos em nosso Estado ainda são resultado de ciclos intermináveis de vingança. Para acabar com essa realidade, temos que frear a entrada de nossos jovens nesses caminhos destrutivos, dando-lhes uma chance justa na vida.
Não podemos permitir que desistam de um futuro promissor e escolham o crime. Ao optarem por essa triste jornada, eles são prontamente arrastados para as teias da vingança, onde a vida se resume a matar ou morrer, independentemente da presença da polícia. E é exatamente nesse momento sombrio que eles se veem desesperadamente dependentes das instituições que nascem da própria miséria.
Precisamos arrancar as vendas que ofuscam nossa visão, para que possamos focalizar nossa atenção na busca de oportunidades. Não podemos deixar de sentir dor e tristeza ao ver nossas crianças e adolescentes embarcando em um sombrio e irreversível destino. Não podemos, de forma alguma, permitir que os menos favorecidos sejam privados de algo que transcende até mesmo as piores influências: a poderosa esperança!