Em 2020, o número de homicídios de mulheres já havia aumentado no Espírito Santo. Agora, nos 10 primeiros meses de 2021, a escalada de crimes letais contra as mulheres continuou e superou em 17,1% a quantidade no mesmo período de 2020. Ao tratar especificamente dos feminicídios, dentro do total dos homicídios de mulheres, o quadro é ainda pior. Os feminicídios nos primeiros 10 meses de 2021 já superam todo o ano passado.
O ciclo da violência doméstica e por discriminação de gênero tem que ser quebrado. A Lei Maria da Penha precisa ser aplicada com rigor. Para tanto, as delegacias especializadas e as redes de proteção às mulheres precisam receber reforços. As visitas tranquilizadoras realizadas pela PM e guardas municipais às mulheres ameaçadas e vítimas de violência devem ocorrer como uma rotina estratégica e determinada. Policiais e profissionais de saúde devem estar capacitados, preparados e integrados no acolhimento às demandas das vítimas de violência doméstica.
Os investimentos para enfrentar a violência contra as mulheres devem ser ininterruptos, maiores e vinculados a indicadores. Projetos importantes como “Homem que é Homem”, que coloca em sala de aula agressores de mulheres para reflexão com policiais civis preparados, podem liderar o movimento de desconstrução de ideias patriarcais e machistas. Tamanho desafio exige potencialização de recursos humanos e de estrutura logística e tecnológica, com status de prioridade zero e atenção de toda sociedade.
Iniciativas como o projeto “Homem que é Homem” ajudam a desconstruir o machismo simbólico, colaborando inclusive na interrupção da reprodução dessa cultura para novas gerações. Está claro que não é a violência que cria a cultura, mas a cultura define a compreensão e o respeito à diversidade de gênero, e esse entendimento é fundamental para a construção de um verdadeiro Estado Democrático de Direito.
A violência contra a mulher está presente em todos os ambientes: no ônibus, na rua, em casa, no trabalho, no ambiente virtual. São marcadas por algo em comum, um pensamento patriarcal que fragiliza a mulher. O machismo faz com que, muitas vezes, a violência sequer seja reconhecida por quem a pratica e por quem a sofre. O machismo encobre agressões dentro de um relacionamento como um mero desentendimento, e até mesmo como culpa da própria mulher. Essa absurda culpabilização faz com que o silêncio e a vergonha façam parte do cotidiano de muitas vítimas.
É inadmissível que, em pleno século XXI, tenhamos que conviver com o desrespeito em consequência do gênero. É preciso perseguir as medidas preventivas com a capacitação de profissionais, com campanhas na sociedade, na mídia, no Ministério Público, em todos os órgãos do Poder Judiciário, do sistema de segurança pública e de assistência de saúde e social, para aprofundar a reflexão do que significa a violência contra as mulheres e estimular mudanças significativas em todas as dimensões, principalmente na dimensão cultural. Afinal, é a cultura que humaniza uma sociedade, e numa sociedade humanizada homem que é homem respeita!