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Segurança pública

Método Giraldi: não basta saber atirar, é preciso saber quando

O método foi desenvolvido para ensinar o policial a preservar sua própria vida e liberdade, a utilizar a arma de fogo em prol da sociedade, protegendo a vida dos cidadãos e evitando tragédias

Publicado em 18 de Setembro de 2023 às 00:40

Públicado em 

18 set 2023 às 00:40
Nylton Rodrigues

Colunista

Nylton Rodrigues

comando.nylton@gmail.com

No último mês, um terrível confronto armado entre as forças da lei e elementos criminosos causou terror naqueles que transitavam pela movimentada Avenida Leitão da Silva, em Vitória. Infelizmente, em meio às subsequentes repercussões desse incidente, declarações insensatas e irresponsáveis foram lançadas ao vento.
É de suma importância esclarecer à sociedade capixaba que a Polícia Militar do Espírito Santo adotou, há 21 anos, o Tiro Defensivo na Preservação da Vida - Método Giraldi como sua instrução padrão, devidamente regulamentada pela Portaria do Comando Geral da PMES nº 324-R, de 10/10/2002.
Desde então, os nossos policiais militares são treinados nesse método. Portanto, qualquer conduta, opinião ou declaração contrária à doutrina do Método Giraldi, no que diz respeito ao uso de armas de fogo pelos policiais, não representa, em hipótese alguma, a posição da instituição.
Desenvolvido pelo renomado coronel Nilson Giraldi da Polícia Militar de São Paulo, o revolucionário método conquistou reconhecimento internacional. Apoiado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, essa metodologia baseia-se nas normas de Direitos Humanos, aplicáveis à atuação da polícia armada. A propagação dessa doutrina na Polícia Militar capixaba só foi possível graças ao inesgotável empenho e dedicação de valorosos instrutores oficiais e praças.
O principal objetivo desse treinamento é preservar a vida do policial e das pessoas inocentes. Ele reconhece que não basta apenas saber o que deve ser feito, é necessário estar condicionado a agir. Não basta ser capaz de atirar, é preciso saber quando atirar e executar os procedimentos adequados.
Afinal, na maioria das vezes, são os procedimentos e não os tiros que preservam vidas e resolvem problemas. O disparo de arma de fogo é considerado a última alternativa e deve ser feito dentro da legalidade, levando em conta a necessidade, oportunidade, proporcionalidade e qualidade.
Entre os princípios básicos da instrução estão: não disparar contra um agressor que esteja no meio da multidão, não atirar na direção de pessoas inocentes, não disparar contra um agressor que esteja usando outra pessoa como escudo e não atirar se houver a possibilidade de a bala se tornar "perdida".
Durante um confronto armado, o policial se encontra entre a vida e a morte, com suas condições físicas e psíquicas alteradas. As situações se desenrolam rapidamente e, frequentemente, envolvendo gritos, correrias e pessoas desesperadas. O agressor age fora da lei e não se importa com a vida dos inocentes, disparando irracionalmente.
Para lidar com todas essas situações, o Método Giraldi enfoca o condicionamento prévio do policial, por meio de treinamentos que imitam a realidade, antes que ele se veja envolvido em uma ocorrência real.
O Método Giraldi foi desenvolvido para ensinar o policial a preservar sua própria vida e liberdade, utilizar a arma de fogo em prol da sociedade, protegendo a vida dos cidadãos e evitando tragédias. A instrução enfatiza a prática e se aproxima o máximo possível da realidade enfrentada pelos policiais.
A doutrina aponta de forma inequívoca que o manejo impróprio de armas de fogo pode acarretar em inúmeras tragédias: a fatalidade do agente de segurança, a perda de vidas inocentes, a privação da liberdade do policial, a violação dos direitos humanos, tensões internas nas forças policiais e o descrédito total do Estado.

MORTE DE POLICIAIS

Ao longo dos últimos anos, mergulhamos em uma triste realidade: incontáveis defensores da lei no Brasil perderam suas vidas no árduo caminho da proteção da sociedade, enquanto outros ficaram com sequelas físicas e mentais irreversíveis, vítimas dos ataques desferidos pelos criminosos.
E temos, ainda, aqueles policiais que, infelizmente, se viram no outro lado da lei, manchando suas reputações, sendo afastados de suas famílias e condenados ao isolamento social por causa de uma atitude equivocada, que resultou no uso indevido de suas armas de fogo. Vidas inocentes foram perdidas e a revolta se espalhou por cada canto de nossa sociedade, clamando por mudanças profundas.
Vídeo mostra exato momento da troca de tiros no meio da Leitão da Silva
Vídeo mostra exato momento da troca de tiros no meio da Leitão da Silva Crédito: Leitor | A Gazeta
A vida é o nosso bem mais precioso, e é por isso que o Tiro Defensivo na Preservação da Vida – Método Giraldi deve ser valorizado e considerado essencial em uma instituição policial. Sua importância é indiscutível, carregando consigo uma responsabilidade de proporções gigantescas. Por isso, é imperativo que sejam feitos investimentos e que seja destinada uma atenção especial a essa esfera vital.
Em um mundo onde as armas estão cada vez mais presentes, é fundamental garantir que os instrutores de tiro policial recebam todo o apoio e as condições necessárias para realizar seu trabalho de forma eficiente. A instrução de tiro de qualidade é a chave para preservar vidas futuras, mas infelizmente a negligência nesse treinamento pode resultar em terríveis sacrifícios.
É com responsabilidade e honestidade que devemos encarar essa questão, pois só assim poderemos assegurar que as competências essenciais para uma atuação armada assertiva sejam devidamente desenvolvidas. Essa é a única maneira de contribuir verdadeiramente para a segurança dos policiais e para a proteção da sociedade.

Nylton Rodrigues

Foi secretário estadual de segurança pública e comandante geral da polícia militar. É especialista em Segurança Pública pela Ufes. Neste espaço, produz reflexões sobre políticas públicas para garantir a segurança da população

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