A manutenção da Selic num patamar elevado e por um período mais longo do que se julgaria adequado e necessário, o suficiente para a geração da maior taxa de juro real do planeta, chama a atenção para a possibilidade de estarmos diante de um fenômeno caracterizado como de resiliência estrutural do processo inflacionário. Um ponto no qual, por mais que se aumente a taxa básica de juros ou a mantenha em patamares além das expectativas, permaneceria um residual inflacionário, e persistente.
Em cálculos aproximados estima-se que cerca de um quarto da inflação nos últimos anos é alimentada pelo mecanismo da indexação. Parcela que tem pouco ou nenhuma influência da Selic. Compõem essa parcela um conjunto de atividades, predominantemente atreladas ao setor serviços, que seguem tendo seus preços reajustados por indicadores da inflação passada.
Ou seja, sempre, de alguma forma reproduzirão o comportamento da média dos preços do passado próximo. Exemplos disso encontramos nos contratos de aluguel e nos contratos de planos de saúde, entre outros.
Supostamente se imaginaria que já tivéssemos dado cabo do que na década de 80, a década da hiperinflação, chamávamos de componente inercial do processo inflacionário, com o Plano Real, levado a efeito em 1994. Porém, o tempo nos tem revelado que ainda nos instiga o desafio de alcançar patamares mais aceitáveis e sustentáveis de inflação, sem a necessidade de recorrência a uma política monetária restritiva e de alta taxa de juros, por longos períodos.
A boa notícia é que o IPCA de maio desceu a 0,23%, levando a inflação acumulada nos últimos 12 meses a 3,9%. Em contraponto, mantida a taxa Selic de 13,75%, a taxa de juros média real passa á mais de 9%. Comparando com o resto do mundo o Brasil está totalmente fora da curva. A taxa de juros média nominal, ou seja, sem o desconto da inflação, no mundo, está no entorno de 2%. Fácil percebermos que a taxa de juros real média no mundo está bem abaixo de 2%.
É importante alertar para o fato de que ao mantermos uma taxa real de juros elevada por longo período poderemos estar neutralizando parte do seu efeito sobre a demanda e, na contramão, pressionando os preços para cima pela via do custo do juro que as empresas tendem a repassar para os seus produtos.
Em síntese, mesmo a despeito do fenômeno da resiliência, há espaço para alivio na taxa Selic.