Até então, ao que nos parece, o Brasil está patinando na construção e na execução de uma agenda de saída da crise imposta pela Covid-19. Aliás, como bem afirmou Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, em entrevista ao "Valor" nesta segunda-feira (20): “Está faltando a construção de uma agenda que olhe o futuro, um olhar macro sobre como é que o Brasil vai sair da crise”.
Avaliação que pode indicar que nem mesmo na vigência de uma trégua no estado de beligerância entre os Poderes da República possa estar servindo como cenário de fundo favorável à realização de avanços em questões que, no momento, se mostram cruciais para guiar o país na direção mais acertada. O Brasil precisa demonstrar para si mesmo e para o mundo que tem um projeto que assegure o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável, dentro de uma perspectiva de inserção competitiva internacionalmente.
No front interno, é necessário que se avance na agenda de reformas, com prioridade para a tributária e a administrativa, não deixando que se perca a ancoragem de longo alcance do teto de gasto. A ancoragem fiscal é fator decisivo na formação de expectativas no longo prazo, sinalização e condição que dará mais confiança e segurança às decisões de investimentos privados, sejam eles originados internamente ou externamente.
Já no front externo, o Brasil precisa conciliar-se com o mundo, desvencilhando-se de armadilhas e de alinhamentos que lhe tiram protagonismos ou mesmo liderança em questões relevantes, com destaque para a questão ambiental. Temos que ter em mente que a agenda do novo normal, ou sucessivos novos normais, em escala global, terá como pano de fundo a questão da sustentabilidade do planeta. E o nosso país possui fatores que lhes são favoráveis para se postar, senão na liderança, pelo menos no “bloco” da frente nesse aspecto.
Ainda no front externo, uma provável eleição de Biden para o comando dos Estados Unidos, chance que cresce com as trapalhadas intermitentes e sucessivas de Trump, deverá implicar em reposicionamentos e realinhamentos em questões importantes nas relações entre os dois países. Biden, por exemplo, já sinalizou para um processo de descarbonização da economia americana. No sentido inverso de Trump. Também deverá mudar as atuais políticas de relacionamento externo, com implicações inevitáveis para o Brasil. A pergunta a colocar é: será que o Brasil conseguirá transformar os Estados Unidos de país “meio amigo” para a condição de amigo?