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Homicídios

A segurança pública do ES não está na UTI, mas esteve em 2017

Onde estavam os profetas do apocalipse, mercadores do medo e os vendedores de ilusão quando a segurança capixaba mais precisou de ajuda?

Publicado em 27 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

27 out 2021 às 02:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

pabloslira@gmail.com

Polícia Militar faz ação e reforça segurança no bairro Planalto Serrano, na Serra, depois de tiroteio e ameaças a profissionais da imprensa
O número de homicídios registrados de janeiro até setembro de 2021 no ES, com um total acumulado de 820 casos, destacou o segundo melhor resultado nos últimos 25 anos Crédito: Fernando Madeira
Recentemente li um artigo cuja narrativa forçava a barra e tentava desesperadamente alardear que em 2021 a segurança pública do Espírito Santo estava na UTI. O dito artigo apresentava fragilidades estruturais e análises estatística enviesadas, construídas pela lógica da conveniência.
Por exemplo, para tentar gerar agitação sobre o aumento pontual de homicídios, o citado artigo utilizou uma base de comparação interanual. Ao mesmo tempo, para mostrar o crescimento de outro crime, foi tomada emprestada uma outra base de comparação, nesse último caso os registros foram acumulados ao longo do ano. Definitivamente, esses métodos apelativos e enviesados não são ensinados em universidades, instituições e academias de ensino de credibilidade.
De fato, o papel aceita qualquer coisa e cabe ao escritor e sua consciência presar pela verdade dos fatos e honestidade intelectual, sob pena de cair em descrédito. Ao se aproximar de ano eleitoral, alguns atores movidos por interesses politiqueiros tentam lançar narrativas estapafúrdias, sem fundamentação científica, sobre a segurança pública e outras áreas. Já vimos essa novela em outros momentos e lugares. São os famosos profetas do apocalipse, mercadores do medo e/ou vendedores de ilusão. Para satisfazer seus interesses escusos, a lógica do quanto pior melhor se torna uma sorrateira aliada.
Será que vale a pena mesmo tentar gerar alarde e/ou agitação com um tema tão caro para os capixabas? Pela honestidade intelectual e acima de tudo pelo compromisso com as evidências científicas e a verdade dos fatos para a população, apresentamos, respeitosamente, alguns dados simples, transparentes, diretos e contundentes que desmontam a falaciosa narrativa mencionada.
De início, insta salientar que os dois anos em que o Espírito Santo registrou os menores números de homicídios foram 2019 e 2020, com respectivamente 987 e 1.103 casos, de acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública (Sesp), que reportam as citadas informações desde 1996. Esses ainda são registros elevados de assassinatos, entretanto são muito inferiores ao pico histórico de 2.034 homicídios computados em 2009, período em que os capixabas sofreram os efeitos de uma prolongada crise do sistema prisional que gerou reflexos na segurança pública e culminou em denúncias em instâncias e cortes internacionais de direitos humanos e até mesmo em um pedido de intervenção federal.
Pedido este que somente não prosperou porque o Estado se comprometeu a corrigir o déficit de investimento na estruturação do sistema prisional. Para um maior detalhamento sobre esse difícil período da história capixaba vale a leitura do livro do Professor Dr. Humberto Ribeiro Júnior, intitulado “Encarceramento em massa e criminalização da pobreza no ES”, e a tese de doutorado do Professor Dr. Marco Aurélio Borges Costa, que foi publicada no formato do livro “Vítimas que choram”.
E no ano de 2021, como estamos? O número de homicídios registrados de janeiro até setembro de 2021 no Espírito Santo, com um total acumulado de 820 casos, destacou o segundo melhor resultado nos últimos 25 anos. Os dados de 2021 somente são superados pelo desempenho identificado em 2019, quando foram registrados 715 homicídios de janeiro a setembro daquele ano, quando o programa Estado Presente foi retomado. O programa Estado Presente é uma robusta política de segurança pública reconhecida como referência por instituições internacionais, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Estes dados e as análises aqui fundamentadas e apresentadas denunciam a fragilidade da narrativa falaciosa de que “a segurança pública do ES está na UTI” em 2021. Se a segurança pública do Espírito Santo esteve alguma vez na UTI, provavelmente isso ocorreu em 2009, quando os assassinatos, acumulados de janeiro até setembro, eram aproximadamente o dobro dos números computados em 2021.
Ou ainda, seria mais coerente dizer que “a segurança pública do ES entrou na UTI e foi intubada em 2017”. Tomo aqui emprestada essa analogia assertiva que foi proferida pelo amigo delegado da Polícia Federal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Dr. Álvaro Duboc. Em fevereiro daquele ano, ocorreu a mais grave crise da segurança pública do Espírito Santo, quando mais de 200 homicídios foram cometidos e uma série de prejuízos para os capixabas foram registrados em algumas semanas. A conjuntura não tomou proporções ainda mais drásticas por conta do emprego das forças armadas via operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), a chamada “operação capixaba”. Mesmo assim, naquele ano foram registrados 1.407 assassinatos.
Desde a crise de fevereiro de 2017, tornou-se perceptível uma maior audácia por parte dos criminosos, assim como foi evidenciada uma maior intensidade da atuação de gangues que operam o tráfico de drogas ilícitas, especialmente em algumas comunidades da Grande Vitória.
Com base nessas evidências e na história recente capixaba, algumas perguntas são suscitadas: onde estavam os profetas do apocalipse, mercadores do medo e os vendedores de ilusão quando a segurança capixaba mais precisou de ajuda? O que eles fizeram para evitar os acontecimentos daquele fatídico fevereiro de 2017? O que eles fizeram para evitar o prolongamento daquela crise?
Por fim, deixo uma reflexão: as narrativas falaciosas, fake news e mentiras têm pernas curtas. No final, a ciência e a verdade sempre prevalecem!

Pablo Lira

Pos-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve as quartas

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