Outro dia passando pela Praia da Costa, onde morou o mestre Antônio Barcelos a quem devo muito do que aprendi para a psiquiatria que exerço até hoje, como em um quadro histórico-clássico, aparece na minha mente o consultório de esquina do Centro de Saúde de Vitória. Ficava bem em frente ao Bar Dominó, do Cine Santa Cecília, no Parque Moscoso.
Ali, naquela sala de aula, no auditório, doutor Barcelos orientava com sua maestria todos nós sextanistas de medicina que pretendiam compreender a mente do outro e a sua própria dentro da relação self-objeto, a transa do inconsciente.
Sob o olhar atento e sábio do mestre fazíamos um primeiro atendimento. Depois era conferir com ele se estávamos fazendo jus à sua disponibilidade. Supervisão de cada caso. O professor Liberato Schwartz também supervisionava com dedicação e maestria. Foi com ele que aprendi a ler a obra de Carl Rogers e outras.
A turma de noviços acadêmicos, futuros médicos psiquiatras, futucadores do inconsciente do próximo, revezava-se em atender os pacientes do Centro de Saúde de Vitória e discutir entre si, trocar ideias e conferir com os outros estagiários, Lucio Simões, Emilia Silva, Eliana Vicentini, Graça Ruy, Luiz Puppim, Julio Prattes, Edwaine Silva, Vanessa Torres e, modestamente, eu.
Praticamente a mesma turma de aprendizes estagiava voluntariamente no Hospital Colônia Adauto Botelho, sob a tutela do mestre Cesar Carneiro Mendonça que segurava a tarefa com pulso forte e competência, ensinando a substituir o medo louco pelo amor e cura. Essa turma contava também com Alaor Queiroz de Araujo, Vitor Masiglia, José Carlos Pereira do Valle, Alcides Pereira da Silva e outros.
Era um hospital cujos diretores exigiam disciplina e competência, inclusive e muito principalmente, do corpo de enfermagem. Ai de quem encostasse o dedo em um paciente. Acho que eram cerca de 600 internos contando com os externos também. A não os ser casos muito graves e irredutíveis, cujas famílias pediam, permaneciam no hospital. No final de semana os pacientes iam para a casa e voltavam na segunda-feira.
Lá aprendíamos, ainda, com Euclides Brotto e Luiz Amorim. O serviço contava com a variedade e quantidade necessária de medicação. As compras eram milimetricamente controladas pela direção.
Então.
Baseados no modelo italiano – liderado por Franco e Franca Basaglia – iniciamos o movimento para a Reversão da Tendência Hospitalocêntrica que envolvia todo o sistema de atendimento, como ocorria em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Foi aí que criamos o Centro de Psiquiatria Comunitária.
A enfermaria que abrigava crianças se transformou em outra. Os pequenos foram para casa, recebendo a atenção necessária em visitas presenciais dos profissionais. A velha guarda tocava o hospital geral e os noviços rebeldes dedicavam-se ao serviço psiquiátrico a que visava e fez muito o atendimento sem internação. O psiquiatra Ellis Busnello, de Porto Alegre, e outros gaúchos, davam supervisão pois já tinham mais experiencia com o Centro Médico Social, São José do Murialdo.
A tarefa de reverter a tendência hospitalocêntrica não é fácil. Mas não é impossível. Graças ao Movimento de Trabalhadores em Saúde Mental por uma Sociedade sem Manicômios, o paciente recuperou sua liberdade de ser. Ninguém, nem mesmo a família, pode obrigar por livre arbítrio a internação compulsória.
A manobra perversa de eternizar um sintoma e com uma internação desnecessária tira do “eleito” paciente, entre outras coisas, o poder sobre seus bens e a sua liberdade: a fabricação da loucura do outro em proveito próprio perdeu boa parte de sua força perversa.
Atualmente o paciente tem direito à voz e à sua vida.
Por conta de um diagnóstico muitas vezes tendencioso, insuficiente e falso, podia-se, e em alguns lugares ainda pode, enlouquecer por interesse uma pessoa sã.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, observa atentamente enquanto teclo.