“Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho. Pra que tanta pose, doutor, pra que esse orgulho. A bruxa que é cega, esbarra na gente e a vida estanca. O enfarte lhe pega doutor e acaba essa banca.
A vaidade é assim, põe o bobo no alto e retira a escada, mas fica por perto esperando sentado, mais cedo ou mais tarde acaba no chão. Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco, afinal, todo mundo é igual quando tudo termina com terra por cima na horizontal.”
O paraense Billy Blanco, um dos gênios da música brasileira, em 1959 já alertava a torcida distraída para o crime de preconceito à negritude. Aproveitou e incluiu “pobre” e “embrulho”.
Já não era sem tempo que a arte brasileira se dava conta, denunciando o mau caráter de pessoas que se aproveitam do poder – qualquer poder – para tirar vantagens – quaisquer vantagens – e subjugar, lembrando que todas as pessoas têm direito a se defender de qualquer modalidade de opressões e submissões, claro. A música de Billy canta que não é uma questão de gênero, mas de caráter.
Foi cantada pela primeira vez no apogeu do Beco das Garrafas, inferninho em Copacabana, Rio, por Dolores Duran, que era negra.
Por incrível que pareça, havia um doutor que frequentava os seus shows. Mas odiava negro ou afrodescendentes. O “doutor” não faltava a uma apresentação sequer, sentava-se na primeira fileira de mesas, mas – pasmem – de costas para o palco. Não dirigia uma palavra a ela porque não falava com negro. Sequer a olhava. É mole?
A música de Billy foi dirigida ao bizarro “doutor” da primeira fila.
Quando queria pedir uma música a Duran, usava os préstimos do garçom, que acabou famoso: Alberico Campana. Acenava com um bilhetinho e ordenava: “Manda a neguinha cantar essa página musical”. Ela atendia com resiliência a ordem do “doutor”.
E olha que ela e Billy Blanco curtiam um amor musicado. Dá para entender a letra da música acima, “A banca do distinto”.
Um dia, muito chateada com o desmiolado racismo da figura, Dolores contou a história ao Billy, que imediatamente compôs o samba, cantado por ela na noite seguinte para o “doutor”.
A música ele fez como um manifesto contra o preconceito, o orgulho, a soberba, a vaidade e a miséria. Acabou elaborando um manifesto social em forma de música. Assim, politicamente e com humor, critica os que se acham melhor que os outros por sua condição econômica, cor da pele, origem social, dinheiro no banco, etc. E no final da canção alerta que a morte, inexorável, iguala todo mundo.
Respeitável público, a mensagem atualíssima, virou clássico e foi gravada por Elis Regina, Wanderléa, Dóris Monteiro e outros mais
Billy Blanco, considerado o maior instrumentista de violão no Brasil, aprendeu a tocar violão sozinho.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, não fala com gato e nem dá mão a rato.