Não é fácil a função de puxa-saco.
Ainda mais quando o objeto da menção honrosa oferece incontáveis superfícies de real merecimento, se que é existe isso. E eu completamente virgem na função de devolver aos amigos, ainda mais se aquilo que nos abandona já não estiver. Será?
Com isso abre-se um campo infinito de formulações, quase histéricas, sobre o canto da trova de sua vida, já que se pode fazer de qualquer pessoa, qualquer pessoa, com simples palavras. Inclusive, e muito principalmente, completamente diferente. Então, para que falar por falar?
E nem sequer as delicadezas precisam ser lembradas, aquelas que ele sempre distribuiu por suas trilhas e às vezes não. Tenho a impressão de que ninguém gosta de se separar dos amigos, nem sequer dos inimigos, muito principalmente para morrer. E ainda mais em casos em que nunca houve lugar para isso.
Cariê não gostou de morrer. Nas poucas conversas em que participei, traduzi no seu sorriso franco e olhos claros o desejo de ficar, ou não. Arrastava, quando podia, qualquer um para a vida, para o gozo de viver. Amava todo mundo, literalmente. No enterro, uma distinta senhora me perguntou durante o féretro se eu iria levá-lo até o fim do cortejo. Disse-lhe que me conformaria dando uma paradinha no meio do caminho na ida até o reino de Santo Antônio.
Tentarei não encher o saco de vocês com frases feitas. E nem vocês o meu. Sei que já tem muita gente a lembrar a vida poética e musical que Cariê curtiu plantando-se nas rodas boêmias, e onde mais fizer bem de imaginar.
Compunha diretamente seus próprios pensamentos mágicos, suas letras. Pelo menos essa é a minha sensação. Escreveu, riu e gozou. Uma vez convidou-me a escrever um livro a quatro mãos, eu não era o melhor para a tarefa, mas certamente não havia alguém mais interessado e emocionado do que eu no reino da Terra.
Acho que Cariê via a alma das pessoas sem fazer barulho, e nem precisava.
Colaborei com um bom pedaço de “GLS, entenda os entendidos”.
A parte dele estava uma pérola, já a minha, um espelho da dele.