Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Eleições

Crimes e suas respectivas impunidades matam mais que coronavírus

Todo pleito é a mesmíssima fórmula, promessas todas iguais. Com raras exceções os candidatos em suas propagandas não aparentam o que são

Publicado em 20 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

20 out 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

paulobonates@uol.com.br

O samba acaba mostrando o lado mais doloroso da miséria e o quanto sofre o sofredor
O samba acaba mostrando o lado mais doloroso da miséria e o quanto sofre o sofredor Crédito: Kira Hoffmann/ Pixabay
Paulinho da Viola e Chico Buarque costumam citar Wilson das Neves, o bamba do samba de raiz, que em uma de suas obras-primas faz uma advertência: “O dia em que o morro descer e não for carnaval, ninguém vai ficar para assistir o desfile final, na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu... é a guerra civil... não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga, nem autoridade que compre essa briga”. E por aí vai.
Talvez fosse o caso de cantar nestes tempos de eleições esses clássicos, já que agora muitas das letras e músicas que estão por aí parecem vindas do nada, com as sempre raras exceções.
Todo pleito é a mesmíssima fórmula, promessas todas iguais. A obrigatoriedade de votar destrói qualquer traço de democracia, para começar. Com raras exceções, os candidatos em suas propagandas não aparentam o que são.
O samba acaba mostrando o lado mais doloroso da miséria e o quanto sofre o sofredor. Quando iniciei o batuque dessas mal traçadas com o assunto na cabeça, o primeiro compositor de quem me lembrei foi Gonzaguinha que, seguindo a tradição familiar, compôs uma ópera digna do pai, Luiz Gonzaga, “Com a perna no mundo”.
Custa nada lembrar: “Acreditava na vida, na alegria de ser, nas coisas do coração, nas mãos um muito fazer”. E dedica-se em falar da sua própria vida, isto é, um pobre rasgado por dentro, por fora, por todo lado: “Sentava bem lá no alto, pivete, olhando a cidade, sentindo o cheiro de asfalto, cresceu por necessidade. O Dina, teu menino desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu. Pensava que era um guerreiro, com terras e gentes a conquistar....”.
Chico Buarque bate na mesma tecla em “Meu Guri”. Presta atenção, eleitor, que mãe brasileira anuncia mais um filho: “Quando, seu moço, nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar. Já foi nascendo com cara de fome e eu não tinha nem nome pra lhe dar. Como fui levando não sei explicar, fui assim levando, ele a me levar, e na sua meninice ele um dia me disse que chegava lá. Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro, chave caderneta, terço e patuá, e uma penca de documentos pra finalmente eu me identificar...”.
O dia em que apareceu com o jornal velho cobrindo rosto morto também mereceu samba: “Eu não entendo esse alvoroço demais, o guri no mato, acho que está rindo, acho que está lindo de papo pro ar”. “Desde o começo, eu não disse seu moço, ele disse que chegava lá”.
Chico deu seu recado. O guri chegou, como chegam todos eles. Dependentes de um sistema que não tem compaixão e oprimidos por autoridades que não querem saber nem o que é isso. Não dão à mínima para seus indefesos guris. Esses, fogem ou aliam-se a qualquer poder, a maioria para sobreviver e organizar seus exércitos e patrulhas do crime da ilegalidade.
Falando nisso, semana passada a “elite” do país apresentou seus artistas bizarros, com dinheiro roubado na cueca e tudo. E um juiz, ignorando a lei ou interpretando-a segundo suas tenebrosas convicções, fez passarela para soltar um traficante assassino pela porta da frente do presídio. Isso somado a centenas de delinquências apavora a todos nós.
Todo santo dia sai no jornal crimes e suas respectivas impunidades enchendo de pavor o eleitor e a família, interrompidos apenas por ações éticas como a Lava a Jato que reina há muito mais tempo no país do que o atual coronavírus. E mata bem mais.
Um dia, seu moço, eles chegam lá.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, foi se esconder.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Doce de leite produzido em Linhares que perdeu a medalha de ouro para um concorrente da Argentina
O segredo do doce de leite de búfala do ES premiado em concurso mundial
Imagem de destaque
Com ferrovia funcionando, Vports quer dobrar movimento de gusa por Vila Velha
Inteligência Artificial vai acabar com algumas profissões
O profissional de marketing na era da IA

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados