Por volta de 1994, havia o programa municipal “O amor pela cidade” em prosa, editado pela Prefeitura de Vitória. Foi também um ano em que Nossa Senhora da Penha se distraiu e metade do mercado da Vila Rubim pegou fogo. Ao mesmo tempo, alguns de nós da Ilha fomos convidados para escrever sobre a cidade. Cada livro sobre um tema, ideia do Paulo Hartung.
Assim, saíram em livros crônicas e contos, o Porto, o Parque Moscoso, os cinemas, bares, botequins, igrejas, escolas...
No livro em que participei – De mercado e mercadores – estavam Chico Flores, Adilson Vilaça, Cariê Lindenberg, Deny Gomes, Fernando Achiamé, Jairo de Britto, Zé Costa, Marien Calixte, Marzia Figueira, o locutor que vos fala e outros que me escapam à memória nesta madrugada zumbi. Traiçoeira memória.
O tema, mercados e feiras, uma recuperação simbólica, quero crer, repleta de amor capixaba.
Então.
Respeitável público, não resisti ao impulso de reproduzir o mesmo texto da edição, consertando uma ou outra vírgula.
“De mercado e mercadeiros
Os domingos são iguais, em qualquer lugar do mundo. Os demais dias passam cada um à sua maneira. O domingo à tarde - principalmente à tarde – é o único e solitário recanto do mundo onde a tristeza adquire formas, só entendidas talvez pelos deuses do humor e dos sentidos.
Mesmo em Londres, em plena Trafalgar Square, acreditem, se é domingo à tarde, é triste. É como se a cidade lenta e preguiçosamente se impregnasse de vazio. Mesmo não havendo nada a protestar em toda a Terra, ninguém sobrevive a essa falta de nada e jamais saberá. Até porque esta é da ordem do sentimento e da paixão.
Só o mercado, o velho mercado, pode salvar o domingo.
Carece apurar o olfato. Ai do mercado que não esteja pleno de cheiros. O nariz é nossa infalível bússola. Permite-nos navegar, por exemplo, por entre batalhões de badejos, cebolinhas, coentros, salsas, cebolas, tomates, costeletas, pernis, sem nos confundir. São específicos os cheiros para cada coisa cheirosa. Jamais terão o mesmo sabor ao olfato, por exemplo, duas folhinhas de hortelã aparentemente iguais. Uma legítima folha de hortelã, como as demais folhas, não se repete.
(...) Fica na Vila Rubim, antes da estação rodoviária, de quem vai para Vila Velha ou Cariacica.
O povo que frequenta o mercado, melhor não há. Uma sonora gritaria em volta das coisas ao redor das bancas, onde todo mundo fala e grita com força. Não se compreende nada, mas se entende tudo.
A visão também é contemplada, supervisionando os demais sentidos espalhados e fornecendo comida e prazer. No mercado estão reunidas todas, absolutamente todas, as cores e todas as tonalidades. É bonito.
Fico sabendo na conversa dos vendedores de responsa que os pescados, nos meses que tem a letra R (que são meses de caranguejo) são os mais excitantes. Constatei”.
Escrever isso me põe a funcionar no melhor em todas as memórias.
Não vou cansá-los mais ainda.
Só sei que a gente cria o mercado e o mercado cria a gente.
Dorian Gray, meu cão vira-latas, adora um tasco de pescada.