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Crítica

"A Filha Perdida": Netflix fecha 2021 com o melhor filme do ano

Adaptação do livro de Elena Ferrante, "A Filha Perdida" marca a brilhante estreia de Maggie Gyllenhall na direção com um sensual drama psicológico

Publicado em 31 de Dezembro de 2021 às 19:19

Públicado em 

31 dez 2021 às 19:19
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Filme "A Filha Perdida", da Netflix Crédito: YANNIS DRAKOULIDIS/NETFLIX
Parece até mentira, mas “A Filha Perdida”, lançado pela Netflix no último dia do ano, é a primeira adaptação de uma obra de Elena Ferrante dirigida por uma mulher. Em sua estreia na direção, Maggie Gyllenhall leva para as telas o livro homônimo da misteriosa autora italiana (ninguém sabe a identidade real dela) com um filme que toma algumas liberdades em relação à obra original, mas que mantém sua essência: a angústia e o desconforto.
“A Filha Perdida” é a história de Leda Caruso, uma mulher de meia-idade em férias em um balneário grego. A narrativa alterna a estadia de Leda na cidade com sequências de seu passado, quando vivia ao lado das duas filhas e do marido e antes de ingressar na carreira acadêmica.
Interpretada por Olivia Colman, no presente, e Jessie Buckley, no passado, a personagem é complexa desde o primeiro momento. Leda aprecia a paz inicial da praia, que logo é interrompida por um grupo de turistas americanos barulhentos - é verão na Europa, afinal. Em meio ao caos instaurado pela família que chega à praia, Leda observa com mais atenção uma jovem mãe, Nina (Dakota Johnson), e sua filha pequena, Elena (Athena Martin Anderson). Quando a jovem Nina se perde na praia, Leda participa da busca e acaba criando laços com a mãe.
Maggie Gyllenhall foge da estrutura que seria convencional, com alguma narração para conduzir o espectador ao ponto de vista de Leda. Ao invés disso, acompanhamos toda a história sob seu olhar, mas o texto nunca parte para o didatismo. As magistrais atuações de Colman e Buckley fazem a personagem crescer a cada cena, nem sempre positivamente - Leda é uma mulher angustiada que olha para seu passado com nostalgia, mas também com uma certa dose de culpa.
Filme
Filme "A Filha Perdida", da Netflix Crédito: YANNIS DRAKOULIDIS/NETFLIX
Leda quase nunca fala sobre suas decisões, mas vamos aprendendo sobre elas com o tempo. O texto é primoroso ao apresentar as duas versões da protagonista, mulheres separadas por quase duas décadas, e é incrível como ele consegue conectá-las. Vemos a Leda de Buckley se transformar na Leda de Colman de forma orgânica. É como se a personagem do passado estivesse presa em contraposição à mulher livre que vemos na narrativa principal.
As idas e vindas temporais nos fazem entender a personagem e seus atos. Nada é simples no mundo de Elena Ferrante, e Gyllenhall consegue captar essa característica do texto da italiana. “A Filha Perdida”, até pelo material original, lembra muito o cinema italiano contemporâneo de nomes como Paolo Sorrentino e Luca Guadagnino na maneira que conduz a história e utiliza as localidades a seu favor.
Filme
Filme "A Filha Perdida", da Netflix Crédito: YANNIS DRAKOULIDIS/NETFLIX
Gyllenhall e a diretora de fotografia Helene Louvart fazem com que o filme respire, mas Leda nunca parece totalmente confortável mesmo quando em paz. Não é como se ela estivesse de férias no paraíso; a ilha grega em que se encontra tem seus atrativos, mas parece já ter visto dias melhores. Essa ambientação ajuda na construção da psique da protagonista e funciona como um complemento para o espectador entender as emoções da personagem.
“A Filha Perdida” é um filme intimista que mostra muito e fala pouco. Gyllenhall também é muito inteligente ao não julgar as escolhas de Leda; a diretora e o texto constroem as viradas desde o início e deixam que nós, espectadores, façamos o juízo de valor. Concordando ou não com as decisões, vemos seus reflexos na Leda de Olivia Colman.
Filme
Filme "A Filha Perdida", da Netflix Crédito: YANNIS DRAKOULIDIS/NETFLIX
No terceiro ato, o filme se distancia um pouco do livro. Gyllenhall deixa a conclusão da jornada de Leda mais poética e subjetiva quando finalmente vemos a personagem plena, leve e livre da culpa que carregou durante quase toda vida adulta.
É estranha a decisão da Netflix de lançar “A Filha Perdida” no último dia do ano. A estreia de Maggie Gyllenhall na direção é brilhante, com um texto intimista conduzido de forma impecável. É quase inexplicável que tenha demorado tanto para uma mulher assumir a direção de uma história de Ferrante, mas o resultado é incrível.
“A Filha Perdida” é um dos melhores filmes de 2021 mesmo tendo sido lançado no último dia do ano. Um filme intimista, mas complexo ao lidar com maternidade, escolhas, feminilidade e culpa, mas também uma história de liberdade - a vida pode ser maravilhosa, mas nunca simples.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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