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Crítica

"A Inundação do Milênio", da Netflix, é bom drama sobre tragédia

Série polonesa "A Inundação do Milênio" mistura fatos e ficção para contar a história de um dos maiores desastres da história da Polônia

Publicado em 11 de Outubro de 2022 às 15:46

Públicado em 

11 out 2022 às 15:46
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série polonesa
"A Inundação do Milênio" conta a história de um dos maiores desastres da história da Polônia Crédito: Netflix/Divulgação
Todo filme desastre tem início com um cientista sendo ignorado pelas autoridades, seja algo mais absurdo, voltado unicamente para o entretenimento, como “A Falha de San Andreas” ou o sucesso recente “Não Olhe Para Cima”, sejam narrativas de pegadas mais sóbrias como a recente “A Inundação do Milênio”, minissérie polonesa lançada pela Netflix que surpreendentemente ocupa um posto entre as obras mais vistas da plataforma desde seu lançamento.
A série acompanha alguns dias na cidade de Breslávia, na Polônia, que se prepara para receber a visita do Papa João Paulo II. Durante as preparações, a prefeitura recebe um fax com um alerta para uma possível inundação. É quando a série nos leva a Jasmina Tremer (Agnieszka Zulewska), uma hidróloga vivendo isolada e totalmente dedicada às pesquisas. Um helicóptero oficial chega para buscar Jasmina e a levar de volta à cidade em que viveu parte da vida e em qual tem uma história.
Chegando em Breslávia, Jasmina obviamente é vista como alarmista por burocratas e cientistas do governo, pois a região não está “no período de chuvas”; o único que a leva a sério é Jakub “Kuba” Marczak, com quem Jasmina tem uma história de juventude no movimento punk anarquista. Sem o devido preparo, fica claro para o espectador que a cidade vai sofrer bastante, como diz o próprio título da série.
“A Inundação do Milênio” é eficiente em construir a tensão durante seus três primeiros episódios. Breslávia é mostrada sempre como uma cidade cheia de água, com um grande rio passando por sua área urbana e com periferias que outrora foram planícies de alagamento, mas que em 97, ano em que se passa a série, eram ocupadas por populosos vilarejos. O texto é eficaz ao mostrar para o espectador a história da região sem ser didático - entendemos que muito da cidade gira em torno do rio. Percebemos também existir um vácuo de poder na administração do país após a queda do regime comunista em 1989, com os militares ainda dando ordens e até mandando mais que os políticos “menores”.
Série polonesa
"A Inundação do Milênio" conta a história de um dos maiores desastres da história da Polônia Crédito: Netflix/Divulgação
Entre uma cena e outra, a série mostra, sem falar nada, como o nível das águas está cada vez mais alto - sem alarde, a câmera sempre mostra um cartaz político no mesmo local, cada vez mais coberto pela água, ou um grupo de ratos saindo dos já alagados esgotos. Ao mesmo tempo, Jasmina, ignorada pelas autoridades, busca meios para informar algumas pessoas e salvar sua mãe, uma ex-cantora lírica agora com dificuldades de locomoção.
“A Inundação do Milênio” é interessante ao fugir do melodrama e do que se espera de histórias do gênero. Há relações e dramas pessoais sendo desenvolvidos pela trama, mas são raros os momentos em que ela busca uma estética de desastre. Ao invés disso, a narrativa tem boa cadência, gastando mais de metade dos seis episódios para construir a expectativa para o maior desastre da Polônia após a Segunda Guerra Mundial.
Série polonesa
"A Inundação do Milênio" conta a história de um dos maiores desastres da história da Polônia Crédito: Netflix/Divulgação
O roteiro mistura fatos e ficção para reforçar o aspecto dramático da série, cruzando histórias de personagens reais com outros criados para fins narrativos. Isso possibilita um tratamento quase documental de alguns arcos e a história ganha força ao final do sexto episódio, quando são mostradas imagens reais da inundação.
“A Inundação do Milênio” é tecnicamente ótima, sem grandes ousadias, mas com boas atuações e uma ambientação que nos faz sentir a força dramática do acontecimento desde o início. A série acerta no tom sóbrio e na cadência com que conta a história, sem se aproveitar das perdas ou torná-las um espetáculo.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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