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Crítica

"A Vida Mentirosa dos Adultos": Netflix acerta em adaptação de Elena Ferrante

Lançada como minissérie na Netflix, adaptação de "A Vida Mentirosa dos Adultos" mostra que as telas entenderam o ritmo das obras de Elena Ferrante

Publicado em 06 de Janeiro de 2023 às 14:20

Públicado em 

06 jan 2023 às 14:20
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série
Série "A Vida Mentirosa dos Adultos", adaptação do livro de Elena Ferrante Crédito: EDUARDO CASTALDO/NETFLIX
As adaptações das obras de Elena Ferrante para as telas têm sido exemplares, um exemplo de respeito ao material original; das quatro temporadas para a tetralogia napolitana de “A Amiga Genial”, na HBO, ao excelente “A Filha Perdida”, filme lançado pela Netflix no último dia de 2021, os realizadores parecem ter entendido exatamente o que o texto da misteriosa escritora italiana precisa para ter, em tela, a mesma força que tem nas páginas de seus livros.
Adaptação do livro mais recente de Ferrante, “A Vida Mentirosa dos Adultos” chega à Netflix como uma minissérie de seis episódios que entendem a essência do livro. O texto acompanha a adolescente Giovanna (Giordana Marengo) em uma jornada de descobertas por Nápoles. Conhecemos a protagonista com problemas da idade, um sentimento de não-pertencimento ao corpo, de não se enxergar nem no pai, um intelectual de esquerda, e tampouco na mãe, uma mulher linda e uma bem-sucedida editora de livros.
Quando escuta o pai a comparando à tia Vittoria (Valeria Golino), uma mulher “horrorosa” com quem os pais não se relacionam desde antes de seu nascimento, Giovanna resolve conhecer a tia. Vittoria representa a dualidade napolitana, a impulsividade italiana, uma mulher que largou tudo para viver um grande amor, algo totalmente diferente ao universo a que a jovem está acostumada. Ao conhecê-la, Giovanna conhece também um outro lado da cidade, um lugar que parecia distante, proibido. A tia provoca Giovanna a olhar com outros olhos para a perfeição das relações, provocando uma verdadeira revolução na cabeça da menina.
A adaptação de Edoardo De Angelis entende a importância da cidade da Nápoles para a obra de Ferrante, e, por mais que seja um clichê afirmar que a cidade é um personagem, ela de fato o é em “A Vida Mentirosa dos Adultos”. A parte “alta”, ocupada pela elite, conversa sobre revolução, levanta bandeiras comunistas em encontro de intelectuais, mas pouco olha ou entende a parte “baixa”. A série é inteligente ao reforçar esse contraste com as pessoas que vivem nesses lugares, antagonizadas por Andrea (pai de Giovanna) e Vittoria - é na parte pobre da cidade onde está a alegria de viver, pessoas rindo, compartilhando o que têm e sendo quem são, sem vergonha alguma.
Série
Série "A Vida Mentirosa dos Adultos", adaptação do livro de Elena Ferrante Crédito: EDUARDO CASTALDO/NETFLIX
A narrativa tem uma divisão clara de dois arcos de três episódios, e a escolha funciona, dando dinâmicas diferentes às duas partes da série. “A Vida Mentirosa dos Adultos” é uma história que talvez pareça não ter foco, mas assim é a obra de Ferrante. A história de Giovanna e todos que a cercam nunca está no mesmo lugar, basta saber interpretar os significados da série e os caminhos escolhidos por ela. O texto traz discussões políticas, religiosas e sociais nem sempre de forma sutil, é verdade, mas uma história protagonizada por uma adolescente e uma impulsiva mulher de meia-idade não presa pela sutileza. Ainda assim, o quinto episódio, com uma reunião do Partido Comunista como pano de fundo para os dramas adolescentes, é ótimo.
“A Vida Mentirosa dos Adultos” se sustenta em Giovanna e Vittoria, e Giordana Marengo e Valeria Golino são excelentes. A jovem é o retrato de uma pessoa em formação, alternando escolhas de uma adulta com atitudes infantis, a descoberta do desejo e os problemas na escola, tudo isso enquanto busca um lugar a que de fato pertença. Já Vittoria é uma personagem complexa, mente quando convém (dando ainda mais sentido ao título), conta meias verdades, protege e manipula. O elenco de apoio também funciona, principalmente Pina Turco, que vive a mãe da protagonista, a dupla Rossela Gamba e Azzurra Mennella, que vivem duas amigas próximas, quase da família, e o encantador GIovanni Buselli, que vive Roberto, um ideólogo católico que se torna um símbolo de desejo e um espelho de maturidade para Giovanna.
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Série "A Vida Mentirosa dos Adultos", adaptação do livro de Elena Ferrante Crédito: EDUARDO CASTALDO/NETFLIX
É necessário entender “A Vida Mentirosa dos Adultos” como um recorte. Ao contrário das décadas da narrativa de “A Amiga Genial”, que acompanha Lila e Lelu ao por toda a vida, a série da Netflix é uma história de formação incompleta - acompanhamos Giovanna apenas dos 14 aos 16 anos e em um momento conturbado de sua formação. O final funciona meio como um sonho, um desejo adolescente de independência que certamente não acaba ali, mas que encerra o arco da personagem de Ferrante de forma elegante e compreendido por Edoardo De Angelis em sua adaptação.
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Série "A Vida Mentirosa dos Adultos", adaptação do livro de Elena Ferrante Crédito: EDUARDO CASTALDO/NETFLIX

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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