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Crítica

"Ataque dos Cães", da Netflix, é um dos melhores filmes de 2021

"O Ataque dos Cães" marca o retorno de Jane Campion ("O Piano") às telas com um drama psicológico tenso e tecnicamente primoroso

Publicado em 01 de Dezembro de 2021 às 03:40

Públicado em 

01 dez 2021 às 03:40
Rafael Braz

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Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Filme "Ataque dos Cães", de Jane Campion, na Netflix Crédito: KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX
Vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original em 1993 e indicada ao prêmio de direção no mesmo ano por “O Piano”, que também rendeu a ela a Palma de Ouro em Cannes, Jane Campion não lançava um filme desde 2009, quando lançou o bom “O Brilho de Uma Paixão”. Nesse meio tempo, escreveu a ótima série “Top of the Lake” e dirigiu quase todos os episódios dela - as duas temporadas finalmente estão disponíveis no Brasil, na HBO Max.
Jane Campion volta agora com “Ataque dos Cães”, que chega à Netflix nesta quarta (1º) com a assinatura da cineasta neozelandesa adaptando, à sua maneira, o livro homônimo de Thomas Savage. Campion deixa boa parte do romance do material original de lado e volta suas atenções para criar um tenso drama psicológico.
“Ataque dos Cães” se situa em 1925, um rancho de propriedade dos irmãos Phil (Benedict Cumberbatch) e George Burbank (Jesse Plemmons). Desde o início, o filme já deixa a entender haver algo que não vai bem na relação entre eles. Phil é um sujeito controlador que não hesita antes de atacar o elo fraco de qualquer relação, seja ela de poder, como com seu irmão, ou profissional, como acontece com o jovem Peter (Kodi Smit-McPhee). Já George é quieto, trata todos com educação e não parece mais querer fazer parte daquele rústico universo de cowboys; os EUA viviam anos de grandes avanços econômicos na década de 1920 e também de grande urbanização.
George se solidariza com a viúva Rose (Kirsten Dunst), mãe de Peter, após a situação causada pelo irmão. Não demora e ambos se casam, com Rose indo morar no rancho dos Burbank enquanto Peter vai para a cidade estudar medicina. A relação dos irmãos, que já não andava boa, desanda - Phil nem sequer dirige a palavra à esposa do irmão e ainda tenta sabotá-la sempre que possível.
Filme
Filme "Ataque dos Cães", de Jane Campion, na Netflix Crédito: KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX
Nesse conflito silencioso entre Phil e Rose, “Ataque dos Cães” tem grandes momentos. Ambos são solitários, ele, por optar por um autoisolamento, ela, pelo tempo que o marido passa na cidade, e cada um lida com isso de forma diferente. Quando Peter vai ao rancho durante as férias passar um tempo com a mãe, a relação familiar se complica. Naquele ambiente bruto de cowboys, o jovem tem interesses e comportamentos totalmente diferentes.
É interessante, neste ponto, como o texto tira George de cena para se concentrar em Phil. O irmão “alfa”, construído inicialmente como um bruto misógino, ganha profundidade e camadas a serem exploradas pela narrativa. À sua forma, Phil vive um luto até pela vida que abandonou para se concentrar nos negócios do rancho da família. Com uma dinâmica meio torta, o filme desenvolve uma relação entre ele e Peter que nos faz temer pelo destino do jovem.
“Ataque dos Cães” é um filme quieto, construído em cima de suas atuações. Cumberbatch, um ator do contestado “método”, demonstra entrega para conferir a intensidade necessária a Phil sem nunca nos passar a impressão de que ele é apenas o que se vê - há mais, há mistérios que cercam o personagem e são fundamentais para as viradas da trama.
Outro destaque é Kristen Dunst, que ganha a simpatia do público com uma Rose às beiras de um colapso nervoso, uma mulher que vive se esgueirando pela casa para fugir de conflitos e acaba mergulhada na própria solidão.
Filme
Filme "Ataque dos Cães", de Jane Campion, na Netflix Crédito: KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX
O roteiro tem dois momentos narrativos distintos. No primeiro deles, o texto aposta na construção da tensão entre Phil e Rose num clima quase de suspense psicológico, sentimento que é muito reforçado pela trilha sonora do genial Jonny Greenwood. As músicas do guitarrista do Radiohead e colaborador habitual de Paul Thomas Anderson conferem ao filme um clima que se assemelha a “Trama Fantasma” (2017), do supracitado diretor.
O clima de suspense também se dá na fotografia de Ari Wegner, que aposta em ambientes escuros, com luz natural, para representar o frágil psicológico dos personagens, mas também tem sequências de tomadas abertas pelas belas paisagens da Nova Zelândia, onde o filme foi gravado. Além disso, o design de produção de Grant Major é incrível, criando uma casa sempre vazia, com um clima inóspito para Rose e de solidão para Phil.
Filme
Filme "Ataque dos Cães", de Jane Campion, na Netflix Crédito: KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX
O segundo momento de “Ataque dos Cães” é na relação de Phil e Peter, quando o filme praticamente abandona o clima de tensão silenciosa da primeira metade e cria uma narrativa sustentada pela dúvida. Quando as viradas surgem, é fácil identificar que as pistas estavam lá desde o início - o roteiro não desperdiça informação alguma.
“Ataque dos Cães” é um filme tecnicamente primoroso e com a narrativa cadenciada que se espera de uma obra de Jane Campion. Por mais que não tenha grandes ousadias, o ritmo pode incomodar alguns, mas a recompensa é entregue na forma de um drama psicológico que alterna tensão e dúvida com temas interessantes e grandes atuações. Um dos grandes filmes do ano e presença certa na temporada de premiações.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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