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Crítica

"Cowboy Bebop": live-action da Netflix é ótimo e respeita o anime

Adaptação live-action para o cultuado anime, "Cowboy Bebop" mistura faroeste, kung-fu e ficção científica em uma divertida aventura cheia de jazz

Publicado em 15 de Novembro de 2021 às 05:01

Públicado em 

15 nov 2021 às 05:01
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série
Série "Cowboy Bebop", da Netflix Crédito: NICOLA DOVE/NETFLIX
A versão live-action da Netflix para “Cowboy Bebop” talvez seja uma das adaptações mais complicadas já feitas. A nova versão não é ruim, longe disso, ela funciona muito bem para quem nem sabe do que se trata, mantém o espírito do anime criado por Shinichirō Watanabe (também disponível na plataforma) e diverte. As complicações da adaptação surgem justamente dessa necessidade de não desagradar os fãs antigos, que já analisaram cada frame dos trailers lançados até agora, e, ao mesmo tempo, entregar um produto novo, com frescor, pronto para ser consumido por massas que não fazem ideia de quem são Spike, Jet, Faye ou Ein.
Os dez episódios de cerca de 45 minutos que chegam à Netflix na próxima sexta (19) procuram se manter fiéis ao anime, mas tomam liberdades necessárias para se recontar a história 23 anos depois. Após uma ótima introdução ao universo de “Cowboy Bebop”, a série nos leva exatamente ao ponto inicial do material original, com Spike (John Cho) e Jet (Mustafa Shakir) a bordo da Bebop, sem grana, e atrás de alguma recompensa. 
Vamos então para New Tijuana, onde acompanhamos Asimov e Katarina tentando traficar Red Eye - a sequência é praticamente idêntica à do anime, quase como se tivessem utilizado as cenas da animação como storyboard. Os caminhos das duas produções se afastam posteriormente, mas o pilar de sustentação está fincado: “Cowboy Bebop”, da Netflix, entrega logo de cara que vai se esforçar para se manter fiel ao anime.
Para os não-iniciados no universo, “Cowboy Bebop” é a história de um grupo de caçadores de recompensas, os cowboys que ocupam a nave Bebop. Spike é misterioso e entende-se logo haver algo que ele não conta - em lembranças, vemos alguns flashs de seu passado, uma mulher misteriosa que o atormenta. Jet Black, por sua vez, vive às voltas com seu passado como policial, querendo saber quem foi que o traiu e o fez cumprir pena. Não demora para conhecermos também Faye Valentine (Daniella Pineda), uma outra caçadora de recompensas que cruza o caminho da tripulação da Bebop.
A série tem formato semi-procedural, com um arco fechado por episódio que nem sempre ajuda a contar a história principal, mas são divertidos e funcionam para aproximar a audiência daqueles personagens. Com capítulos mais longos, “Cowboy Bebop” tem tempo para desenvolver melhor seus protagonistas de maneira a funcionar no formato Netflix, que visa manter o espectador preso desde o início da narrativa para que ele a consuma o mais rápido possível.
Assim, o texto altera a ordem de alguns acontecimentos, adiantando ou atrasando a apresentação de um ou outro personagem e/ou conflito a fim de criar uma narrativa com um ritmo mais apropriado ao formato live-action e aos dez episódios. Ainda, fazendo isso, o roteiro pavimenta o caminho para uma segunda temporada guardando histórias a serem contadas.
Série
Série "Cowboy Bebop", da Netflix Crédito: GEOFFREY SHORT/NETFLIX
Com apenas dois diretores ao longo da temporada (Alex Garcia Lopez e Michael Katleman), a série mantém uma pegada constante mesmo com algumas "sessões" não tão boas no meio. Os dez episódios têm seu arco no passado de Spike e seus conflitos com o Sindicato, organização agora comandada por Vicious (Alex Hassell), um sujeito com fortes ligações com o passado do protagonista. O texto não tem pressa para contar toda a história presente no anime, o que o permite algumas idas e vindas temporais para conhecermos mais sobre cada um dos personagens principais e até dos coadjuvantes relevantes. A história original de “Cowboy Bebop” está presente e todos os elementos estão postos à mesa, mas não há motivo algum para se apressar a narrativa e desperdiçar conteúdos já preparados para as próximas temporadas. O roteiro também aproveita para dessexualizar Faye Valentine e dar mais espaço, por exemplo, a Julia (Elena Satine), um dos fios condutores da história, mas que pouco aparece no anime.
Esteticamente, a série aposta numa artificialidade intencional para recriar o clima noir do anime, algo que em alguns momentos a aproxima dos filmes “Sin City”, por exemplo, que adapta os quadrinhos de Frank Miller para o cinema. “Cowboy Bebop” tem bons efeitos de computação gráfica, mas não abusa deles, sabendo dosá-los para causar impacto quando necessário. Os cenários são quase sempre sujos, sem aquela pureza estética de séries de ficção científica - os protagonistas, afinal, não têm dinheiro. As cenas de luta são bem coreografadas e algumas têm soluções bem criativas, mas nem sempre têm o peso necessário. Ainda assim, duas delas merecem destaque (sem spoiler): uma na igreja, num conflito já esperado pelos fãs, e a outra em um flashback de Spike.
Série
Série "Cowboy Bebop", da Netflix Crédito: KERRY BROWN/NETFLIX
O destaque absoluto de “Cowboy Bebop” é a trilha sonora da Yoko Kanno, também autora da trilha do anime. São as músicas da compositora japonesa que dão o tom sofisticado da série, com muito jazz, mas também são as composições de Kanno que conferem à narrativa um ar faroeste meio country-blues fora-da-lei. É interessante como o jazz “bebop” combina com a imprevisibilidade dos personagens principais, que não são exatamente ensaiados, mas funcionam bem agindo livremente - não é coincidência que os episódios são identificados como sessões de improviso.
“Cowboy Bebop”, ao fim dos dez episódios, oferece uma jornada prazerosa e satisfatória, mas, ironicamente, deixa a sensação sempre de que poderia ter ido além, ousado mais. Quando os protagonistas não estão em tela, a trama se torna enfadonha, e isso acontece em todo o arco de Vicious e Julia. Outro problema também parece ter sido causado pela pandemia, que interrompeu as filmagens e ocasionou uma grande mudança de planos.
A série da Netflix se mantém mais presa ao material original do que o esperado (o que não é ruim) e, pelos ganchos deixados, dá indícios de que planeja seguir na mesma toada em possíveis próximas temporadas. Mesmo tendo se encerrado o arco aberto pela série e apesar de alguns problemas, a vontade é de continuar assistindo a novas histórias naquele clima que mistura ópera espacial, spaghetti westerns e filmes de kung-fu, tudo com uma trilha sonora impecável.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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