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Crítica

"Dinheiro Fácil": violenta série sueca da Netflix é ótima

Em "Dinheiro Fácil: A Série", o escritor Jens Lapidus adapta sua popular série de livros para a Suécia dos novos tempos e com novas questões sociais

Publicado em 08 de Abril de 2021 às 17:28

Públicado em 

08 abr 2021 às 17:28
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série
Série "Dinheiro Fácil", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Nos últimos anos, a Suécia, considerada um dos países mais pacíficos do mundo, viu a violência crescer nas periferias de grandes cidades como Estocolmo, Malmo e Gotemburgo. No início dos anos 2000, o problema era tratado como periférico, restrito a bairros de imigrantes de origem árabe ou de países africanos, mas a violência cresceu - grupos familiares e de diferentes etnias foram sendo formados e passaram a batalhar principalmente pelo controle da venda de drogas.
As brigas entre as gangues em 2020 proporcionaram grandes e cinematográficos embates com direito a tiroteios, explosões e perseguições. A violência urbana se tornou prioridade para os políticos que temem que o crime organizado crie “um novo estado” e ameace a democracia, uma ameaça que nós, brasileiros, conhecemos como poucos.
“Dinheiro Fácil: A Série”, lançada nesta semana pela Netflix, mostra essa nova realidade dos grandes centros suecos. Em seis episódios de cerca de 45 minutos, a série acompanha três arcos principais que eventualmente se cruzam. No principal, Leya (Evin Ahmad) é uma mãe solteira que tenta se dar bem no mundo das startups e está disposta a tudo para vender seu projeto para um grande investidor.
O caminho de Leya se cruza com o de Salim (Alexander Abdallah), uma espécie de sicário, um matador da gangue comandada por Ravy (Dada Fungula Bozela). Há ainda o arco de Tim (Ali Alarik), um jovem tipicamente sueco, que se vê atraído pelo poder e pelo dinheiro oferecido pelo crime.
A forma como “Dinheiro Fácil” cruza suas tramas é orgânica e nunca parece exagerada. O texto constrói uma Suécia multicultural - enquanto os executivos falam inglês entre si, nos subúrbios há até imigrantes que não falam sueco. É curioso notar também como essas duas suécias pouco se encontram, papel que cabe a Leya no roteiro.
Série
Série "Dinheiro Fácil", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
A série é uma adaptação do livro homônimo de Jens Lapidus, que acompanha um jovem do interior envolvido com a venda de cocaína para sustentar seu estilo de vida em Estocolmo. O livro e suas duas sequências já foram transformados em uma trilogia de filmes estrelados por Joel Kinnaman na Suécia - o primeiro, dirigido por Daniel Espinosa, é ótimo. É por conta desses filmes, inclusive, que a Netflix decidiu pelo “A Série” ao lado do título de seu lançamento.
“Dinheiro Fácil” é uma série dura e violenta. O diretor Jesper Ganslandt opta sempre pela câmera na mão, seguindo seus personagens e colocando o espectador dentro da ação. Essa característica às vezes a aproximam da narrativa do excelente “O Profeta” (2009), do francês Jacques Audiard, um filme que mostra a violenta periferia francesa de maneira bem cruel.
É interessante como texto adaptado pelo próprio Jens Lapidus mostra a transformação da sociedade sueca nos últimos 15 anos. Enquanto os livros, lançados entre 2006 e 2011, se mantêm num submundo distante da população sueca e mais focado na máfia sérvia, a série leva a trama para um caminho que aproxima a violência do que antes era a “outra Suécia”.
Série
Série "Dinheiro Fácil", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
O roteiro de “Dinheiro Fácil” traça claro paralelos entre a busca por esse tal dinheiro. No mundo dos empreendedores, várias startups esperam pela chance de se tornarem parte de uma grande empresa e pouco se importam com as práticas de seus investidores, o que importa é a grana, venha de onde vier.
Ao fim de seis episódios, a série deixa possibilidades a serem exploradas, mas encerra bem seus arcos principais. “Dinheiro Fácil” é ágil e violenta, mas de fácil consumo. A série sueca lançada pela Netflix vale a pena ao nos mostrar uma Suécia pouco explorada e também por oferecer uma narrativa divertida e um roteiro bem amarrado, no qual os acontecimentos se dão de forma orgânica. Uma ótima pedida meio escondida no catálogo da plataforma.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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