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Crítica

"Enola Holmes", da Netflix, é diversão leve e muito ágil

Estrelado por Millie Bobby Brown e Henry Cavill, "Enola Holmes" adapta para as telas livros que acompanham as aventuras da irmã caçula do detetive mais famoso da história

Publicado em 23 de Setembro de 2020 às 20:51

Públicado em 

23 set 2020 às 20:51
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Filme "Enola Holmes" Crédito: ALEX BAILEY/LEGENDARY
Um clássico oitentista, “O Enigma da Pirâmide” (1985), de Barry Levinson, trazia as aventuras de um jovem Sherlock Holmes se descobrindo como detetive. Indicado a um Oscar, o filme foi o primeiro contato de uma geração com o personagem criado por Arthur Conan Doyle no final do século 19.
De lá para cá, Sherlock teve altos e baixos; foi trazido para os dias de hoje pela boa série da BBC, levado para os EUA em outra nem tão boa, e transformado em herói de ação interpretado por Robert Downey Jr. nos filmes de Guy Ritchie. O personagem agora vira coadjuvante em “Enola Holmes”, filme que seria lançado nos cinemas, mas acabou adquirido pela Netflix em virtude da pandemia, e chega nesta quarta (23) ao serviço de streaming.
Dirigido por Harry Bradbeer (“Fleabag”), o filme se baseia nas histórias de Nancy Springer, que criou a irmã mais nova do detetive, personagem nunca citada nas histórias de Arthur Conan Doyle. Criada pela mãe (Helena Bonham Carter) sem a presença do finado pai ou dos ocupados irmãos, Sherlock e Mycroft, Enola (Millie Bobby Brown) é uma mulher diferente para a época; ela sabe lutar,  conhece literatura, filosofia, soluciona mistérios, enfrenta autoridades, ou seja, não depende de ninguém para dizer o que ela pode ou não fazer.
Sua vida muda quando sua mãe desaparece deixando algumas pistas - ela parte então em uma jornada para encontrá-la. Sua aventura ganha novos contornos à medida que outras pessoas cruzam seu caminho e a trama ganha ares mais grandiosos. A presença de Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Claflin) apenas acrescenta outra camada ao roteiro.
Millie Bobby Brown é um espetáculo de carisma em cena. A narrativa do filme tem uma constante quebra da quarta parede, com a protagonista conversando diretamente com a câmera em diversos momentos - a experiência do diretor com “Fleabag” deve ter ajudado bastante nessa condução. A atriz, famosa por “Stranger Things”, desfila pela tela, sempre seguida de perto pela câmera, o que coloca o público sempre dentro da ação e não oferece a ele muito espaço para pensar. O recurso funciona bem na maior parte do tempo, mas pode irritar pelo excesso de didatismo em certos momentos.
Apesar de uma ambientação supostamente grandiosa, a Londres do século 19, “Enola Holmes” é um filme simples. Há, claro, os grandes salões vitorianos e roupas luxuosas, mas a maior parte do filme é situada em ambientes urbanos e de pouca pompa, o que possibilita também um filme mais barato.
Filme
Filme "Enola Holmes" Crédito: ALEX BAILEY/LEGENDARY
O roteiro faz um trabalho interessante ao inserir de forma natural alguns temas históricos, como a luta das sufragistas pelo sufrágio universal, a discussão sobre o voto das mulheres. A mudança do plot também funciona bem, com a jornada de Enola em busca da mãe se transformando em outra aventura. O texto derrapa apenas em algumas sequências totalmente previsíveis, mas deve-se entender o público alvo do filme.
É interessante notar como o roteiro depende pouco do que poderia ser seu grande chamariz, Sherlock Holmes. A versão de Henry Cavill para o personagem icônico é charmosa e mais simpática do que as encarnações anteriores do personagem. Sua presença, porém, funciona para ressaltar as potências de Enola - o detetive se diverte, com orgulho, ao ver a irmã solucionando casos e fazendo a diferença. O público cria a expectativa de que, ao fim, Sherlock apareça para salvar o dia, aquelas aparições bem convenientes, ex-machina, mas o filme não é sobre ele.
Filme
Filme "Enola Holmes" Crédito: ALEX BAILEY/LEGENDARY
Millie Bobby Brown mostra que tem força para conduzir um filme sozinha e sua presença em tela nunca se torna cansativa, pelo contrário. Apesar disso, o roteiro se beneficiaria com uma variação de dinâmica que poderia vir de e mais cenas da atriz com Cavill, algo que provavelmente deve acontecer em uma sequência - o filme adapta apenas o primeiro dos seis livros lançados por Nancy Springer sobre as aventuras de Enola.
“Enola Holmes” não é um filmaço, mas é divertido e um ótimo entretenimento. O início das aventuras da jovem Enola é correto e tem pegada de literatura para jovens adultos, com o despertar para o amor e a busca por um lugar de pertencimento. Ao fim, fica a curiosidade de saber o que pode vir a ser explorado nesse universo à medida que Millie Bobby Brown e a personagem envelheçam (ambas têm 16 anos); poderemos ver mais Sherlock? Será que teremos um jovem Moriarty? As possibilidades são inúmeras.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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