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Crítica

"Eu Me Importo" é um dos melhores filmes originais da Netflix

Estrelado por Rosamund Pike, "Eu Me Importo" mistura humor e crime num thriller de narrativa e estética pop, mas cheio de imoralidade e corrupção

Publicado em 19 de Fevereiro de 2021 às 00:15

Públicado em 

19 fev 2021 às 00:15
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Filme "Eu Me Importo", da Netflix Crédito: Seacia Pavao/Netlix
“Eu Me Importo” é o filme perfeito para plataformas de streaming. Lançado pela Netflix nesta sexta (19), o longa dirigido por J Blakeson tem texto ágil e inteligente, edição pop com neon na medida certa (bela fotografia de Doug Emmett) e uma aura synth wave nunca exagerada (trilha de Marc Canham) , além de rostos conhecidos para fisgar os desavisados. É um filme que talvez não se tornasse popular nos cinemas e tampouco teria grandes chances em premiações (tem uma indicação ao Globo de Ouro), mas que, com a força da Netflix, pode muito bem se tornar um sucesso.
O roteiro original escrito pelo próprio Blakeson é centrado em Marla (Rosamund Pike, indicada ao Globo de Ouro), uma mulher que ganha a vida com curadoria de incapazes, ou seja, quando um idoso não é mais capaz de cuidar de si próprio e não tem familiar que o faça, o Estado a designa como guardiã legal do incapaz. Por trás de sua empresa de “cuidados”, Marla tem um grande esquema de corrupção que envolve clínicas, casa de repousos, médicos etc.
A engrenagem do esquema funciona perfeitamente bem até que ela encontra Jennifer Peterson (Dianne Wiest), uma senhora em início de demência, sem herdeiros e com bastante dinheiro a ser explorado, o alvo perfeito. O problema (é claro que tem que existir um problema), é que a Sra. Peterson tem uma ligação com a máfia russa comandada por um homem misterioso (Peter Dinklage, o Tyrion de “Game of Thrones”). Assim, Marla se torna alvo de mafiosos e o filme ganha novos contornos.
“Eu Me Importo” é uma mistura de comédia, crime e thriller com claras influências dos filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen. Rosamund Pike está incrível como a protagonista, uma mulher de poucos escrúpulos, mas ainda assim carismática. É interessante ver como ela antagoniza os russos de frente, com pouco receio - sua única preocupação é manter viva sua companheira, Fran (Eiza González). A química entre as atrizes é ótima.
Filme
Filme "Eu Me Importo", da Netflix Crédito: Seacia Pavao/Netlix
A construção de Marla é o que faz “Eu Me Importo” funcionar tão bem. Apesar de não ser uma mocinha convencional, o público não quer ver a personagem de Rosamund Pike sofrendo nas mãos dos russos. Mesmo em pouco tempo, a personagem ganha desenvolvimento o suficiente para entendermos como ela chegou até ali e o que a levou a montar o lucrativo esquema de exploração de idosos abandonados. Os russos, ao contrário, se mantêm como vilões misteriosos, de quem pouco se sabe, nem mesmo seus nomes, até determinado momento do filme.
“Eu Me Importo” tem seus três atos bem definidos e algumas reviravoltas pontuais que dão fôlego e frescor a cada um deles. O roteiro é redondo, não se aprofundando em muita coisa além da protagonista, mas também não deixando pontas soltas ou se sustentando em cima de coincidências. Algumas situações parecem improváveis e absurdas, principalmente no segundo ato, mas é essa a intenção. Há ainda momentos de trabalho sutil, cenas aparentemente inofensivas que ajudam a justificar o que acontecerá mais adiante.
Filme
Filme "Eu Me Importo", da Netflix Crédito: Seacia Pavao/Netlix
Apesar de toda estética colorida e divertida, o filme de Blakeson é cruel em sua essência. Marla é bem-sucedida porque tem um esquema de corrupção; o paralelo traçado no filme é dela com a máfia russa. Na verdade, “Eu Me Importo” é um filme pessimista e imoral, pois não há pessoas corretas - todos, em níveis diferentes, fazem parte de algum esquema. Esse aspecto até reforça uma semelhança do filme com os trabalhos dos irmãos Safdie (“Joias Brutas”), mas em um universo menos caótico e muito mais elegante.
“Eu Me Importo”, na Netflix, terá ótima chance de se tornar um merecido sucesso com seu humor peculiar, sua narrativa pop e suas reviravoltas que funcionam sempre a favor da história. O filme de J Blakeson é comandado por um roteiro bem amarrado que agrada até quando opta pelo absurdo e, principalmente, por uma atuação impecável de Rosamund Pike.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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