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Crítica

“Moxie”, da Netflix, diverte e emociona com resgate do punk feminista

Dirigido por Amy Poehler, “Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta” chega à Netflix com história de ativismo que funciona para jovens e adultos

Publicado em 03 de Março de 2021 às 22:26

Públicado em 

03 mar 2021 às 22:26
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Filme "Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Você se lembra da adolescência? De como as ideias eram confusas e os sentimentos, descontrolados? Se lembra da necessidade de fazer parte ou de passar despercebido torcendo para que tudo acabe logo? Amy Poehler parece se lembrar. Famosa inicialmente pelas esquetes do “Saturday Night Live”, Poehler se tornou uma das grandes comediantes da indústria com “Parks & Recreation” e uma produtora requisitada de programas como “Boneca Russa”, série criada por ela.
Lançado nesta quarta (3) pela Netflix, “Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta” é o segundo filme de Amy como diretora - o primeiro, “Wine County”, não é lá grandes coisas. “Moxie” baseia-se no livro homônimo de Jennifer Mathieu e acompanha a história de Vivian (Hadley Robinson), uma adolescente de 16 anos, tímida, feliz por passar despercebida na selvageria que é o colegial. Vivian tem em Claudia (Lauren Tsai) sua melhor amiga com quem divide tudo desde a infância, inclusive a sensação de não-pertencimento.
Um dia, fuçando coisas guardadas por sua mãe, Lisa (Amy Poehler), Vivan se depara com fotos, zines e músicas de quando sua mãe era jovem e fazia parte do movimento riot grrrl. Inspirada pelo clássico “Rebel Girl”, do Bikini Kill, a jovem inicia anonimamente o zine “Moxie” e o distribui nos banheiros da escola. A publicação funciona como uma faísca para um movimento de mudanças na tradicional escola.
“Moxie” faz escolhas interessantes como não construir a escola como uma utopia progressista, algo comum em produções recentes como “Sex Education”. O ambiente escolar do filme mais lembra aquele dos filmes dos anos 1980 e 90, com os atletas populares, mesmo que o time da escola seja horroroso, e os “diferentes” deixados de lado. Essa ambientação é necessária para o roteiro porque possibilita o levante inicial dos excluídos, de gente como Vivian, que fazia parte daquela estrutura mesmo sem perceber.
A narrativa é convencional e se atropela um pouco ao querer lidar com questões em excesso, principalmente no arco do novo relacionamento de Lisa. Ao mesmo tempo, essa narrativa funciona como um registro do turbilhão de ideias na cabeça de Vivian. O levante na escola, inicialmente restrito a um pequeno grupo, logo ganha novas proporções e adeptos.
Algumas das críticas ao filme dizem respeito ao tratamento secundário dado pelo roteiro a uma personagem trans - “Moxie” realmente não levanta essa bandeira, mas tem a personagem trans, CJ, interpretada por uma atriz trans, Josie Totah. Se por um lado realmente parece diminuir a questão, por outro tampouco a trata como um conflito - ser uma mulher transexual é uma característica de CJ, algo que ela leva para a luta feminista do texto, que também trata da sexualização de mulheres negras e de imigrantes, entre outros temas. É como se o zine e o que acompanhamos nas quase duas horas de filme fosse apenas o começo.
É na compreensão das diferenças, inclusive, que “Moxie” tem sua grande força. O filme de Amy Poehler inicialmente tem Claudia como um contraponto ao posicionamento “dedo na cara” que sua amiga, filha de uma ex-punk, assume. De uma família coreana e conservadora, a jovem até tenta, mas não opera na mesma rotação que as amigas. Mais tarde ela percebe poder ser relevante e presente atuando em outras frentes. Nem todas precisam ser igual.
Filme
Filme "Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Apesar do tom ativista, “Moxie” é um filme leve e empolgante. O resgate da cena punk dos anos 1990, mesmo que breve, funciona bem e proporciona uma ótima trilha com Bikini Kill, Sleater Kinney, The Mighty Mighty Bosstones e outros. A escolha de Mac McCaughan, da lendária banda Superchunk, para comandar a trilha é acertadíssima. O filme ainda tem uma montagem ágil e urgente que combina com o ritmo acelerado das músicas.
O roteiro também é divertido, criando boas situações e diálogos para professores, pais e alunos. O filme mostra que todos são importantes em qualquer luta, mas que nem todos têm a mesma compreensão do que se passa o tempo todo. Isso fica claro quando as jovens encontram aliados como a própria mãe de Vivian ou o professor Mr. Davies - não existe um conflito de gerações, mas um entendimento, um aprendizado entre elas.
Filme
Filme "Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
“Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta” não é perfeito, mas tampouco é perfeita adolescência. O filme de Amy Poehler é divertido, emocionante e derruba barreiras geracionais encontrando na luta pelo que se acredita um elo de ligação entre jovens e adultos. “Moxie” é um filme sobre posicionamento, respeito, construção de identidade e, principalmente, sobre aprender com as diferenças.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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