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Crítica

"O Traficante": série da Netflix tem muito estilo e zero conteúdo

Minissérie francesa lançada pela Netflix se destaca por episódios curtíssimos e linguagem diferente, mas oferece pouco conteúdo a ser explorado

Publicado em 11 de Março de 2021 às 16:36

Públicado em 

11 mar 2021 às 16:36
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série francesa
Série francesa "O Traficante" Crédito: MIKA COTELLON/Netflix
Produtos de cultura pop em formato de “found footage”, ou seja, que simulam um material aleatório encontrado e lançado, datam no século XVIII. Na literatura, utilizava-se o formato de cartas para contar histórias supostamente íntimas e reais. Fyodor Dostoiévski, por exemplo, usou o formato em “Gente Pobre”, seu livro de estreia; Bram Stoker fez algo similar no clássico “Drácula”.
No cinema, o cultuado horror “Holocausto Canibal” (1980), é considerado o primeiro do estilo, mas a popularidade mesmo veio com “A Bruxa de Blair” (1999). O filme foi o primeiro a utilizar-se da internet para realmente fazer uma campanha promocional. À época das exibições do filme em festivais, ele era vendido como material encontrado de estudantes, todos mortos. Um documentário curta-metragem sobre a lenda da Bruxa de Blair foi criado e exibido na TV pouco antes da estreia do filme, aumentando ainda mais o burburinho. 
O sucesso foi tanto que vieram várias cópias com o tempo, em sua maioria filmes de terror de baixo orçamento. Durante muito tempo a fórmula não funcionou bem. Só em 2007, quando “Atividade Paranormal” e “REC” foram lançados é que se percebeu ali uma tendência que poderia gerar bons produtos. Os anos seguintes viram bons lançamentos também fora do terror. Filmes como “Poder Sem Limites”, Cloverfield”, “Distrito 9”, “Projeto X” e “Marcados Para Morrer” levaram o “found footage” por caminhos interessantes.
“O Traficante”, lançado esta semana pela Netflix, faz bom uso do estilo. A série francesa acompanha dois diretores de clipes que são contratados por uma gravadora para gravar o clipe do rapper Tony Kamara (Abdramane Diakite). A música de Tony estourou enquanto ele estava preso, então os executivos da gravadora querem um clipe que mostre a vida de um chefe do tráfico em Marselha.
Série francesa
Série francesa "O Traficante" Crédito: MIKA COTELLON/Netflix
Quando a equipe formada por Franck (Sébastien Houbani) e Steve (idir Azougli) chega ao bairro em que Tony mora, já enxerga o perigo da situação - homens armados, barreiras de fiscalização e uma comunidade inicialmente avessa à presença deles ali. Com três câmeras (uma amarrada ao peito de Franck, uma na mão de Steve e outra com Tony), a equipe passa a registrar o que acontece por lá, de trocas de tiros com traficantes rivais a momentos familiares do rapper, um sujeito querido e prestativo na comunidade.
É curioso perceber como o texto quebra a expectativa não só do público em relação do que a equipe encontra por lá, mas também dos executivos da gravadora, que esperavam encontrar o estereótipo do bandido. Mais curioso ainda é perceber que Tony é, sim, o esterótipo do traficante, um sujeito explosivo e carismático, que oferece mais à comunidade do que o poder público e vive com alguns dilemas morais. Ao buscar fugir do clichê do traficante violento, a série cai no clichê do bandido carismático.
Série francesa
Série francesa "O Traficante" Crédito: MIKA COTELLON/Netflix
O grande diferencial de “O Traficante” são seus episódios de curta duração - dos 10, metade tem menos de 10 minutos de duração; o maior deles tem 15. Cada episódio traz um novo conflito, o resolve e deixa um gancho para a continuação da trama. Assim, a série permanece enxuta e sempre urgente.
O problema é que esses conflitos nem sempre são orgânicos, principalmente os que surgem na relação da equipe com Moussa (Mohamed Boudouh), que parecem criados apenas para a composição de um antagonista, alguém que coloque a equipe contra a parede. As negociações de Tony com um traficante rival também nunca são muito bem compreendidas, mas adicionam um pouco de imprevisibilidade à trama.
Série francesa
Série francesa "O Traficante" Crédito: MIKA COTELLON/Netflix
Durante a maior parte do tempo, a narrativa é feita pelas câmeras da equipe. Apenas em um ou outro momento, enxergamos os acontecimentos pela câmera de um carro da polícia ou por algum outro dispositivo. “O Traficante”, porém, sofre com uma questão que pode comprometer esse tipo de linguagem, a artificialidade de alguns momentos. As atuações são exageradas e algumas situações, forçadas.
Apesar disso, a minissérie francesa tem seu valor. O estilo possibilita cenas de ação bem pensadas, alternando entre as câmeras e uma linguagem que até aproxima a narrativa da de jogos de tiro e ação em primeira pessoa. Além disso, principalmente com a câmera no peito de Franck, o espectador se sente dentro da ação da série, com correrias, fugas e tiroteios que infelizmente se restringem ao arco final.
“O Traficante” é uma jornada interessante, mas bastante falha. A minissérie francesa da Netflix cria algumas expectativas que nunca são cumpridas, principalmente em função de sua virada final, que muda o rumo da história. Talvez tudo funcionasse melhor em um filme, sem os recortes episódicos. Como série, é um exercício de estilo que termina comprometido por atuações irregulares e uma artificialidade nas situações. Um produto de consumo rápido e descartável.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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