A animação “Sem Maturidade Pra Isso”, disponível na Netflix, tem um público alvo bem definido: adultos entre os 30 e 40 anos que têm que lidar com as responsabilidades da vida adulta, mas não querem deixar no passado as lembranças da juventude.
A série criada por J. G. Quintel (“Apenas um Show”) para o serviço HBO Max, com produção do Cartoon Network, chega ao Brasil pela Netflix em oito episódios que, na verdade, são 15 - cada um dos sete primeiros divide seus 22 minutos em dois mini-episódios.
O texto acompanha Josh e Emily, pais da pequena Candice. Com ambos na casa dos 30 anos, dívidas estudantis e a vontade de oferecer uma educação de qualidade para a filha, eles resolveram dividir a casa em que moram com os amigos Alex e Bridgette, um ex-casal de amigos agora divorciados.
Josh é um talentoso desenvolvedor de jogos, mas nunca conseguiu um grande sucesso, já Emily é uma espécie de faz tudo em uma grande empresa. Alex, por sua vez, é um pós-doutor em antropologia que tem os vikings como material de estudo, ou seja, nada que dê dinheiro. Por fim, Bridgette, a mais jovem dos quatro, está desempregada.
Todo o humor de “Sem Maturidade Pra Isso” (péssimo título em português) se sustenta em referências e identificação, tudo num clima de muito absurdo. Por isso, para a audiência que passa por situações similares e consumiu as referências, a série é um espetáculo. É interessante se reconhecer nas situações e por vezes até se ver como alvo das piadas - Josh é fã de Weezer, acha que ainda sabe andar de skate e mantém hábitos e costumes da adolescência; já outro personagem não para de falar sobre a viagem que fez para Machu Picchu... Se identifica com algo?
Mesmo que os adultos sejam o foco da série, ela brinca não apenas com quem não sabe muito bem, por exemplo, pra que serve o Tik-Tok - o retrato que o texto faz de jovens pós-millennials é interessante e funciona quase como um espelho de comparação. Já fomos como eles (sim, me incluo no público alvo), donos de verdades incontestáveis e de uma visão umbiguista de mundo; fossem os adultos de hoje jovens, com certeza estariam admirando celebridades influencers e se alimentado de curtidas em redes sociais.
Assim, “Sem Maturidade Pra Isso” funciona praticamente ao contrário do que o título nacional sugere: a série mostra justamente o processo de amadurecimento, de perceber que talvez a vida não seja justamente como a gente imaginava que seria e entender que ser bem-sucedido por não ser exatamente uma questão financeira. É como finalmente entender que a letra de “I Don’t Wanna Grow Up” do lendário Descendents (“Se crescer significa ser como você, então eu não quero ser como você”), não é uma recusa a envelhecer, mas aos padrões comportamentais impostos pela sociedade.
Como os mini-episódios duram cerca de 11 minutos cada, não há tempo a ser desperdiçado; a agilidade da série, sempre com muita coisa acontecendo rapidamente, compromete um pouco o desenvolvimento inicial dos personagens, pois é só ao final da temporada que passamos a entender um pouco mais o comportamento de cada um deles.
É interessante notar como praticamente todos os episódios partem de situações normais para logo depois mergulhar no absurdo, uma escolha que aumenta o poder de empatia da animação com o seu público - se você tem mais de 35 e já foi a uma balada jovem, vai entender o que estou dizendo.
Por fim, o que torna “Sem Maturidade Pra Isso” tão interessante é a maneira como ela consegue dialogar com seu público sem se apoiar na nostalgia; tal qual “Cobra Kai”, agora um sucesso na Netflix, a série criada por J.G. Quintel faz graça com quem opta olhar para trás ao invés de entender as inevitáveis mudanças.