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Crítica

Série "Mãe Só Tem Duas", da Netflix, é ótima comédia familiar

A série mexicana "Mãe Só Tem Duas" conta a jornada de duas mulheres diferentes que tiveram as filhas trocadas. Ludwika Paleta, a Maria Joaquina, vive uma delas

Publicado em 20 de Janeiro de 2021 às 23:00

Públicado em 

20 jan 2021 às 23:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série
Série "Mãe Só Tem Duas", da Netflix, Crédito: Laura May/Netflix
As fórmulas pré-estabelecidas de cinema podem ser usadas para o bem ou para o mal. Pode-se, por exemplo, seguir uma fórmula à risca, com todos os clichês do gênero, seja ele qual for, mas também é possível partir de uma fórmula clássica e criar uma jornada que, mesmo sem ser um suprassumo de originalidade, apresenta novos conceitos, mistura outros elementos e conte uma história de maneira particular. Ou seja, para cada “Amor com Data Marcada”, uma divertido amontoado de clichês, há um “Você Nem Imagina…”, que pega a fórmula das comédias românticas e a subverte a seu favor.
“Mãe Só Tem Duas”, série mexicana lançada pela Netflix nesta quarta (20), funciona como um misto das duas coisas. A trama aproveita o formato seriado e uma narrativa maior para agradar a todos. A série acompanha a vida de Mariana (Paulina Goto) e Ana (Ludwika Paleta), duas mulheres que, por uma obra do destino, dão à luz no mesmo dia, no mesmo hospital, e têm as filhas trocadas na maternidade, um erro que só é descoberto quatro meses depois, quando já se apegaram às crianças que estavam criando. A solução encontrada para não comprometer o desenvolvimento das bebês é inusitada: Mariana se muda para casa em que Ana mora com seu marido e seus filhos.
O primeiro conflito surge do fato de as duas mulheres serem completamente diferentes. Mariana é uma jovem de origem humilde, que pouco conheceu o pai e vem de um relacionamento complicado com Pablo (Javier Ponce), que a abandonou durante a gravidez. Já Ana é parte da elite mexicana, uma workaholic controladora, mas muito bem-sucedida e totalmente americanizada. É óbvio que o embate de costumes entre as duas é inevitável, mas a série vai além.
“Mãe Só Tem Duas” acaba sendo uma história de afeto e aprendizado. Ludwika Paleta, para quem ainda não associou, é a Maria Joaquina da versão original da novela “Carrossel”. Na série da Netflix, ela dá vida a uma mulher cheia de certezas e com a ciência de que tem que se mostrar impassível, além de trabalhar bem mais que os colegas homens, para manter seu status profissional. Já mãe de dois filhos, ela havia prometido ao marido parar de trabalhar para passar pelo menos um ano com a nova herdeira, o que obviamente não acontece.
Série
Série "Mãe Só Tem Duas", da Netflix Crédito: Laura May/Netflix
Seguindo a fórmula das comédias românticas mesmo sem ser uma obra do gênero, “Mãe Só Tem Duas” constrói as protagonistas inicialmente se odiando por razões óbvias, mas elas logo enxergam que têm mais em comum do que o amor pelas duas bebês. Mariana e Ana passam não apenas a aprender uma com a outra, mas também a reconhecer semelhanças que as fazem repensar seus atos. Nesse aspecto, a série ainda se inspira na fórmula clássica do elemento novo para mudar um ambiente antigo, ou seja, a presença de uma pessoa que pensa diferente pode mudar muito do que antes era tido como certeza.
A série criada por Carolina Rivera(roteirista de “Jane The Virgin”), apesar de algumas temáticas mais sérias, é uma comédia ágil e divertida. As personagens principais se levam a sério, mas há muito alívio cômico nas figuras de Conrado (Roy Verdiguel), Ceci (Dalexa Meneses) e Rodrigo (Emilio Beltrán Ulrich). Há também subtramas que envolvem o casamento de Ana com Juan Carlos (Martín Altomaro) e também um pouco de Teresa (Liz Gallardo), a mãe de Mariana. Elas não se destacam, mas tampouco representam um desperdício nos enxutos episódios de pouco mais de 30 minutos.
Série
Série "Mãe Só Tem Duas", da Netflix Crédito: Laura May/Netflix
“Mãe Só Tem Duas” aproveita sua pegada pop para discutir as relações familiares e de afeto - tanto Ana quanto Mariana com razão se sentem mãe das duas crianças. A discussão se estende à maternidade, ao conflito de gerações e a outras questões de amadurecimento e relacionamentos, mas a série acerta ao não vilanizar um ou outro modo de ver o mundo, são apenas visões diferentes que foram moldadas a partir do ambiente em que cada uma das protagonistas foi criada.
A série mexicana é uma boa surpresa lançada pela Netflix, com texto e montagem inteligentes e, principalmente, com atrizes carismáticas. Ana e Mariana funcionam bem separadas, mas juntas oferecem um mix de desprezo e admiração uma pela outra. “Mãe Só Tem Duas”, ao fim, é uma história que faz ótimo proveito de fórmulas conhecidas do público para criar uma sensação de conforto, mas a série também oferece frescor tanto na história quanto na maneira como ela é conduzida.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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