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Crítica

"Sexify": série da Netflix oferece diversão leve e sensual

Com clima picante e influências de "Sex Education", série polonesa "Sexify" chega à Netflix com roteiro superficial, mas que oferece bom entretenimento

Publicado em 30 de Abril de 2021 às 03:03

Públicado em 

30 abr 2021 às 03:03
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série polonesa
Série polonesa "Sexify", da Netflix Crédito: Krzysztof Wiktor/Netflix
O que torna “Sex Education” uma série tão legal? Em suas duas temporadas, a comédia da Netflix lidou com dramas adolescentes sem subestimá-los e também tratou o sexo como algo normal, sem moralismos ou regras a serem cumpridas. O sucesso da série britânica foi gigante e era questão de tempo que sua fórmula passasse a ser copiada… Ou pelo menos que tentassem copiá-la.
“Sexify”, série polonesa lançada nesta quarta (28) pela Netflix, seria o processo de evolução natural de “Sex Education” - sai o ambiente colegial e entram a universidade e o mercado de trabalho. No primeiro episódio conhecemos Natalia (Aleksandra Skraba), uma jovem programadora às voltas com o desenvolvimento de um aplicativo para o sono. Conhecemos também Paulina (Maria Sobocinska), amiga de infância de Natalia, e Monika (Sandra Drzymalska), a rebelde filha de um milionário que leva uma vida livre, transando com quem quer quando tem vontade.
O caminho das amigas se cruza com o de Monika quando ela se muda para o quarto ao lado no dormitório da universidade. A reação inicial é de conflito - Monika é barulhenta, leva homens para seu quarto e atrapalha Natalia em seu projeto. Típica nerd estereotipada, a programadora não tem vida social e sua personalidade é construída dentro dos estereótipos de pessoas do espectro autista, mas nada sobre isso é mencionado em momento algum.
Já Paulina é uma mulher de vida sexual ativa com o noivo, mas não sabe o que é sentir prazer durante a relação. A jovem, com formação rigidamente católica, vive com a culpa cristã que seus pais e sua comunidade colocaram em sua cabeça.
Série polonesa
Série polonesa "Sexify", da Netflix Crédito: Krzysztof Wiktor/Netflix
Assim, quando Natalia resolve tornar o aplicativo do sono em um aplicativo para ajudar mulheres a chegar ao orgasmo, algo que ela nem sabe o que é, ela precisa de ajuda de mulheres com mais experiência no assunto. É quando se forma o trio de protagonistas, cada uma com suas peculiaridades, para trabalhar em função do sucesso da startup - a nova grande ambição nas narrativas de mercado de trabalho.
“Sexify” se esforça, desde sua sequência de abertura, para ser sexy - e até consegue em vários momentos. A série, no entanto, se concentra demais em tentar ser picante e acaba se esquecendo de um ponto que nunca pode ser deixado de lado, o desenvolvimento de personagens. Entendemos que Natalia é uma “nerd”, isso é reforçado pelo texto várias vezes, mas o roteiro apenas superficialmente aborda sua relação com a mãe e a avó.
Série polonesa
Série polonesa "Sexify", da Netflix Crédito: Krzysztof Wiktor/Netflix
Assim, quando no clímax surge uma cena que deveria ser comovente, ela não tem peso algum. O mesmo acontece com as outras personagens com suas relações prévias - nunca entendemos ao certo a dependência de Monika com seu ex-namorado ou o contexto familiar de Paulina, construída apenas como uma mulher infeliz e religiosa. O exagero na construção das personagens é intencional e realizado de forma a gerar conflitos entre elas e delas com o mundo do sexo, foco do aplicativo, mas falta dar conteúdo às protagonistas além disso.
A série tem um início meio lento, o que acontece principalmente em função da descrença do público em Natalia, uma mulher a princípio chata e irritadiça. A partir do terceiro episódio, porém, a trama passa a caminhar melhor quando encontra seu foco. A experiência de assistir às oito partes que integram a primeira temporada, ao final, é satisfatória. “Sexify” levanta bons temas e mesmo sem inovação narrativa alguma, prepara bem o espectador para seu fim, que quase surpreende e acaba sendo uma recompensa ao público, um conforto.
Série polonesa
Série polonesa "Sexify", da Netflix Crédito: Krzysztof Wiktor/Netflix
Mesmo tendo alguns bons arcos, “Sexify” não os explora como poderia. As referências de “Sex Education” são quase explícitas, com um negócio de sexo e até uma mãe como uma espécie de guru/terapeuta sexual. As semelhanças também estão na maneira como o texto trata o sexo, quase sempre sem problematizá-lo, e na estrutura narrativa, sobre a qual não vou revelar spoilers aqui. Há, vale ressaltar, algumas questões mal resolvidas pelo roteiro e atitudes que incompreensivelmente permanecem sem consequência alguma.
“Sexify” não é “Sex Education”, é bom que isso fique claro. A série polonesa não tem a qualidade narrativa da britânica e tampouco sua profundidade, mas isso não significa que ela seja ruim. “Sexify” é um entretenimento leve, às vezes meio picante, com um conteúdo central ótimo, a sexualidade feminina, mas o explora apenas superficialmente e com pouco carisma. Quando as personagens começam a ficar realmente interessantes, a primeira temporada chega ao fim.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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