Março é o mês em que eclodem eventos, palestras, manifestações, marchas planejadas para ocorrerem durante todo o mês com o objetivo de celebrar avanços e refletir os retrocessos e os impedimentos que ainda persistem nas vidas de meninas e mulheres do mundo todo.
Na maioria das vezes, trato aqui de questões relacionadas aos governos e à sociedade civil, mas há um setor com extrema relevância nas campanhas de março e em todas as outras futuras: as empresas privadas. E tratar do papel das empresas é refletir sobre tantos aspectos que muitas vezes nos passam despercebidos.
Para além de pensarmos sobre a imperiosa necessidade de equiparação salarial, de igualdade de oportunidades de ascensão na carreira, de fim do assédio moral e sexual praticado por superiores hierárquicos, é necessário refletirmos sobre os inúmeros casos em que mulheres faltam ao trabalho, a princípio sem motivação específica, por estarem com hematomas espalhados pelo corpo resultantes de agressões.
É preciso pensar em novas culturas empresariais que visem identificar uma possível vulnerabilidade dessas mulheres para prestar o auxílio necessário - sempre com uma escuta atenta.
Além disso, outra reflexão salutar diz respeito à maneira como as contratações de mulheres podem ser realizadas sem discriminação. Começo pensando logo no exame admissional feito pelo profissional médico, em que às mulheres é perguntado quando foi o último período menstrual, na intenção de descobrir a probabilidade de a concorrente à vaga estar grávida.
Nesse ponto, as empresas têm crucial relevância, já que o discurso sobre a licença maternidade é extremamente castigador para nós mulheres e inadmissivelmente interfere na decisão do médico quanto à aptidão da mulher para exercer o trabalho.
As empresas, que tanto acompanham a atualização de sistemas, funcionamento, gestão de recursos e de pessoas, devem se ater ao que está sendo discutido ao redor do mundo. Estamos na Década de Ação da ONU e temos o propósito de construir a Geração Igualdade. O setor privado é fundamental para a adesão e o sucesso de pactos tanto internacionais quanto internos pela construção de uma sociedade mais justa, sem discriminação e sem violências.
Muitas empresas, inclusive, já entenderam que a relevância da construção de uma sociedade igualitária e sem violências para mulheres e homens reflete positivamente para os próprios negócios. Por que será que, mesmo ciente dos ganhos financeiros a partir do empoderamento feminino, a maior parte das empresas segue reproduzindo uma gama de violências contra as mulheres?
