No ano em que Estatuto da Criança e do Adolescente completa 30 anos, o que Bolsonaro faz é dar uma aula de como ele pode ser violado, quando uma “youtuber mirim” de dez anos é exposta em canal de comunicação oficial a violências diante do deboche sexual presidencial. Isso acontece no mesmo momento em que o assassinato político de Marielle Franco completa 30 meses.
Trago o fato de estarmos até hoje sem respostas efetivas por parte do Estado de quem mandou matar Marielle porque essa omissão, esse retardamento de atuação do Estado brasileiro, é um retrato de como as questões públicas são permeadas pelo machismo estrutural.
O que Bolsonaro faz é mostrar como a violência política de gênero está nas entranhas do seu governo e como faz parte de cada ação deliberada. O que leva um Presidente da República a fazer “piadas” – sim, entre aspas pra que não reste a menor dúvida de que não é uma brincadeira – de conotações sexuais com uma menina de dez anos de idade?
Isso ocorreu no mesmo espaço em que ele disse que foi acusado de ser misógino, mas não sabia o significado e teve que pedir a um assessor para procurar na internet. É, presidente, você pode não saber o significado do dicionário, mas sabe muito bem como é ser um misógino de carteirinha em seus atos.
Antes eu tendia a acreditar que muitas de suas falas e ações eram automáticas, sem pensar muito, mas depois de pouco tempo vendo diariamente como Bolsonaro e sua trupe agem, ficou bem explícito que tudo é muito bem calculado. Não podemos esquecer que a “youtuber mirim” que foi ridicularizada pelo presidente do Brasil tem a mesma idade da menina que foi violentada pelo Estado brasileiro e pelos seguidores bolsonaristas ao buscar o abortamento legal depois de ser estuprada por anos dentro da sua própria casa.
Não podemos ignorar, ainda, que a “youtuber mirim” exposta por Bolsonaro tem a mesma idade de milhares de meninas brasileiras submetidas a “piadas” feitas por amigos da família, por parentes e pelos próprios pais. Essas meninas de dez, 11 anos, são as meninas que são engravidadas dentro de suas próprias casas por homens conhecidos depois de serem agredidas psicológica e sexualmente.
Tudo isso faz parte do grande circo cruel e misógino do governo Bolsonaro, que tira a dignidade de meninas brasileiras. Só que nesse caso, o circo não faz rir; muitas vezes mata.