Querido Papai Noel, escrevo esta carta de última hora, mas eu sei que o senhor é bondoso e não se esquece de ninguém (pelo menos foi isso que meus pais sempre falaram comigo e eu nunca deixei de acreditar). Amanhã muita gente vai estar preparando uma ceia e trocando alguns presentes. Algumas famílias vão deixar de lado as diferenças de entendimento do que é uma vida digna e do que é igualdade pra poder passar uma noite “em paz”, se é que podemos dizer que 2020 nos possibilitou essa palavra.
Como sei que o senhor é generoso e passa em praticamente todas as casas, o que eu quero te pedir é pra levar alguns presentes especialmente para nós, meninas e mulheres. Eu acho que meus pedidos são muito simples, Papai Noel, mas não entendo como tanta gente não consegue enxergar que dá para realizar tudo isso.
Quero que deputadas eleitas não sejam assediadas sexualmente na Assembleia Legislativa como aconteceu na semana passada com a Isa Penna. Quero que mulheres não sejam obrigadas a ouvir de um juiz da Vara de Família que “se tem lei Maria da Penha contra a mãe, eu não tô nem aí. Uma coisa eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça”.
Queria que o senhor também levasse um recado para os homens e deixasse em cada casa por onde passar (mas aqui eu vou copiar uma carta que vi de uma mulher que eu admiro muito, a Débora Diniz): “Quando as mulheres falarem que “os homens assediam” e você não é um assediador, não se altere. Você não precisa sofrer. Acredite em sua inocência. Sua individualidade não está ameaçada se você não foi nomeado. Não acoberte os assediadores”.
Eu também queria pedir vacina e, isso sim, eu sei que não é pedir muito, mas andam dizendo por aí que tem um efeito colateral de virar jacaré. Peço também um plano efetivo de enfrentamento às violências domésticas e familiares contra as mulheres, que aumentaram muito neste ano todo, além de uma via alternativa para que as mulheres não fiquem por conta de toda a responsabilidade do cuidado, sofrendo mais nesta pandemia que já tá pra completar um ano.
Pra esta carta não ficar muito grande, mais uma coisa que eu te peço é que, nestas festas que vão acontecer amanhã e depois, as meninas sejam respeitadas em seus corpos e individualidades e que tios e tias parem de repetir como papagaios “cadê o namoradinho?” para aquela sobrinha que tem, na verdade, uma namoradinha. Fica repetitivo. Talvez fosse o caso de o senhor instituir um decreto pra que os presentes só possam ser de livros; quem sabe assim o repertório aumente e a cabeça expanda. Se precisar de ajuda com a lista, é só me chamar. Feliz Natal!