Ontem foi o marco de 1000 dias desde o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Mil dias sem que o Estado brasileiro respondesse à pergunta que ecoa e que muitos fingem não ouvir: quem mandou matar Marielle?
Diante dessa pergunta, entendo que não há que se falar em impunidade pura e simplesmente. Esse discurso de impunidade não pode continuar sendo reproduzido sem maior criticidade em um país que tem quase 800 mil pessoas presas. A punição é feita sim e cotidianamente.
Por outro lado, podemos falar em uma seletividade no que se investiga e pune ou não. Aí entra o assassinato de Marielle e Anderson. E entram também tantas outras violências que estão cada vez mais afloradas no nosso país e que se assemelham no modus operandi do tratamento do Estado brasileiro com relação à investigação e resposta para esse assassinato político de gênero de Marielle.
A deputada federal Talíria Petrone deixou o Rio de Janeiro com sua filha por receber ameaças de morte e não ter até hoje nenhuma resposta de proteção por parte do Estado. Carol Dartora, primeira vereadora eleita negra de Curitiba recebeu ameaça de morte em um e-mail recheado de ódio e racismo.
O autor das ameaças justificava a intenção de matá-la pelo fato de ele estar desempregado e ela ganhar um salário de vereadora “apenas por ser macaca”. Benny Briolly, primeira vereadora trans eleita em Niterói, também está sendo ameaçada de morte e, segundo as ameaças, será feito o mesmo que fizeram com Marielle.
Esses três foram só alguns exemplos do que as mulheres – e a maioria mulheres negras – eleitas estão sofrendo ultimamente sem que o Estado brasileiro consiga responder efetivamente. Não é de hoje que as mulheres, ao ocuparem os espaços reservados historicamente aos homens, são agredidas. Verbal e fisicamente, não há por eles nenhuma vergonha ou medo de agredir. Não há vergonha ou medo de não aceitar a democracia, a representativa, a luta de cada um e de cada grupo por seus direitos.
Dizem que muitas pessoas que atacam o fazem para repelir algo que incomoda internamente. Repelem antes que os atinjam. Talvez seja esse o caso. A intenção de silenciar para sempre as mulheres eleitas que vão ocupar o espaço que, sim, também é nosso.