Encontros memoráveis de aficionados por vinho
"Órfãos do Pedra Azul. É dessa forma que nos referimos carinhosamente àqueles aficionados que estiveram em algumas das oito memoráveis edições do Encontro Internacional do Vinho do Espírito Santo, evento que se realizava sempre no primeiro fim de semana de agosto na Pousada Pedra Azul, na região serrana distante 90 quilômetros de Vitória. Com um audacioso programa de temas e degustações, reunindo vinhos de elevado padrão difíceis de serem encontrados, apresentados por inúmeros palestrantes estrangeiros de primeira grandeza, o evento chegou a ser considerado o maior acontecimento de vinhos finos do Hemisfério Sul. O responsável por tudo foi o médico capixaba Roberto Gomes Serpa, que, com determinação e paixão liderou um grupo de devotos pela causa (Jesse Tabachi, José Roberto Podestá, Marcelo Neto e alguns mais). Após dois encontros sem convidados estrangeiros, Serpa se animou e começou a pensar em trazer nomes de fora, realizando o 1º Encontro Internacional, em 1998. O evento foi ganhando prestígio e consistência, reunindo um público selecionado de cerca de 300 enófilos ávidos por informação qualificada e ansiosos para provar garrafas incomuns, seja as importadas especialmente com antecedência quanto as trazidas “debaixo do braço”. De todas as degustações, a mais trabalhosa de compor foi a de “Cult Wines”, nome apropriado para a categoria de vinhos californianos de pequena produção, padrão diferenciado e preços altíssimos, no estilo dos “vinhos de garagem” europeus surgidos no início dos anos 90. Depois de rodar por 15 dias pelas melhores lojas e negociantes da região, o “enviado especial” do evento encontrou um cavista do Napa Valley disposto a ajudar, conseguindo a façanha de trazer cinco dos mais renomados: Bryant Family 97, Dalla Valle Maya 96, Araujo Eisele Vineyard 96, Harlan Estate 96 e até o raro e caro Screaming Eagle 96. Apoiador dos Encontros desde a primeiro hora, Dávide Marcovitch, então diretor da Möet Hennessy na América Latina, ajudou a promover, em 2000, uma inesquecível vertical de seis safras de Dom Pérignon, trazendo na bagagem três excepcionais safras antigas, 1985, 1973 e 1964, que faziam parte do estoque particular da matriz e estavam descansando em suas caves até o ano anterior, quando foi feito o “dégorgement”. O mesmo Marcovitch conseguiu outra proeza: trazer Pierre Lurton, diretor-geral e responsável pelos celebrados Château Cheval Blanc e Château d’Yquem para comandar duas degustações, em 2005. Na primeira, como parte do programa oficial, ele esmiuçou para os mais de 250 presentes no auditório as características de Saint Emilion, região de sua especialidade, através de seis grandes tintos escolhidos pelo sindicato dos produtores local. Teria sido um grande desperdício trazer Lurton e não aproveitar para que falasse do vinho que ele mais conhece. É o que gerou uma degustação paralela, como se convencionou chamar as atividades fora do programa oficial, com seis ótimas safras de Château Cheval Blanc, 2001, 2000, 98, 95, 89 e 88. A festa para ser completa tinha que ter doce no final, mas não era preciso exagerar. Lurton conseguiu permissão especial do todo poderoso Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH, e tirou pela primeira vez do Château d´Yquem um par de garrafas da elogiada safra 2001. Na comitiva de Marcovitch veio mais um personagem ilustre, o enólogo Roberto de la Mota, que havia concebido com Lurton um dos grandes vinhos da Argentina, o Cheval des Andes. De la Mota esteve à frente da palestra que reuniu três grandes tintos chilenos e três argentinos do mesmo nível para mostrar as virtudes vitivinícolas de cada país. Outra presença notável nesses encontros foi Paul Pontallier, diretor e responsável do renomado Château Margaux, Premier Grand Cru Classé de Bordeaux que saíra de uma fase pouco feliz para alcançar incrível brilho depois que ele assumiu em 1983. Pontallier apresentou para 300 pessoas as últimas cinco safras do vinho que ele produz no Chile, o Aquitânia, e conduziu uma vertical com cinco colheitas (1990, 1989, 1988, 1985 e 1983) de seu nobre bordalês para 40 privilegiados. Degustá-los com Pontallier não era o mesmo que fazê-lo em qualquer outra oportunidade. Alguns destaques daqueles eventos: - “Quem dá melhor nota 100: Parker ou Wine Spectator” - Pouco importava saber qual dos dois pontuava melhor; o intuito da degustação era uma oportunidade de provar seis vinhos magníficos numa mesma oportunidade: Mouton Rothschild 82 e 88, Haut Brion 89, Latour 90, Petrus 90 e Petrus 89. - “Vertical de Vega Sicilia”: safras 60, 75, 79, 81 e 85 - “Onde está o Barca Velha”: Barca Velha 82, Mouchão 79, Pera Manca 95, Ferreirinha Reserva Especial 92, Quinta da Gaivosa 97 e Fojo 96 - “Quem é o número dois de Pomerol depois do Petrus” (todos da ótima safra 1998): Lafleur, Trotanoy, La Consellante, L’Evangile e Vieux Château Certan. - “A Borgonha em magnuns de um grande ano, 1990”: Corton Charlemagne Drouhin, Morey St Denis 1er Cru les Monts Luisants Drouhin, Gevrey-Chambertin Jadot e Nuits St Georges 1er Cru Clos de la Maréchale Faiveley. A saudade daqueles Encontros na Pedra Azul bate mesmo quando lembro do ambiente que imperava nos eventos. Um brinde ao Roberto Serpa."