Eu estive lá. Fui pessoalmente, percorri a Barra da Tijuca, no Rio, de ponta a ponta, com meus próprios olhos, minha própria incredulidade e um calor que parecia mensagem divina: saia daqui logo. Torres cinzas soltas, sem calçada decente, sem árvore, sem diálogo com o pedestre. Um cenário de filme distópico, daqueles em que a humanidade sobreviveu, mas esqueceu de perguntar para quê.
Mad Max do urbanismo. Não é força de expressão. É laudo técnico.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Barcelona respira um plano urbano desenhado em 1859 por Ildefons Cerdà, o engenheiro catalão que inventou a palavra urbanização e, antes de rabiscar uma linha sequer, foi a campo estudar as condições de vida dos trabalhadores.
Chegou a uma conclusão que até hoje soa revolucionária: o desenho da cidade é uma decisão moral. Quadras octogonais, esquinas chanfradas, ruas largas, pátios internos ajardinados. Luz, verde e ventilação para todos. Ricos e pobres no mesmo modelo. Sem rua de primeira.
Cerdà morreu endividado. A cidade que ele desenhou virou uma das mais visitadas do planeta. Alguém fez as contas erradas.
Vitória também tem os seus
Mas vamos parar de olhar só para o Rio. Porque, aqui no Espírito Santo, temos nossa própria galeria de urbanistas, em ordem cronológica, com acertos, lacunas e uma genialidade que, às vezes, a própria cidade não percebe que tem.
Tudo começa em 1896, com Saturnino de Brito. O engenheiro que desenhou a base do tabuleiro sobre o qual todos jogam até hoje. O sistema de saneamento, a drenagem, o traçado que deu à Grande Vitória a sua espinha dorsal. A ultra genialidade silenciosa que sustenta uma das cidades mais lindas do Brasil. Sem Saturnino, não existe conversa.
Depois veio o governador Christiano Dias Lopes, com a ousadia de quem enxerga antes. Foi ele quem desenvolveu Bento Ferreira, que para mim é uma das bolas da vez. Um bairro crescendo com personalidade, identidade, mistura. Algo raro em tempos de condomínio clonado.
Contemporâneo de Christiano, Creso Euclides projetou Jardim da Penha, e o jogo muda completamente de patamar. Jardim da Penha transborda. Comércio de rua, feira, botequim, costureira, e um número de salões de beleza que faria qualquer pesquisador de mercado chorar de inveja. É um bairro comunitário no sentido mais bonito da palavra: a vida acontece na calçada, no olho no olho, no cafezinho que a vizinha oferece antes de você perguntar.
E então chegamos a Jolindo Martins, que concebeu a Enseada do Suá. Um bairro que hoje se transforma em polo residencial, com condomínios de alto padrão olhando para o mar. É justo dizer que Jolindo fez um trabalho de valor: a Enseada abriga o Cais das Artes, a Praça do Papa, o Projeto Tamar, o Hortomercado, equipamentos institucionais de peso.
Eu diria que é um bairro institucional, e não há demérito nisso. Mas falta vida de rua. À noite, o bairro recolhe, as avenidas se esvaziam e o pedestre que se aventure. É um bairro de avenidas ainda à procura de esquinas.
Vitória não chegou onde chegou por acaso. Chegou porque, em diferentes momentos, alguém parou, olhou para o território e perguntou: essa cidade existe para quem? E respondeu com projeto.
Cerdà faria isso. Saturnino fez, em 1896. Christiano e Creso fizeram. A Enseada ainda está construindo sua resposta.
E a Barra da Tijuca? A Barra segue esperando alguém fazer a pergunta certa.