Existe uma velha máxima segundo a qual, para erguer as catedrais góticas, foi preciso derrubar antigos templos romanos. Pode soar cruel, mas é assim: toda cidade se constrói em cima das camadas do que existiu antes.
Vitória conhece essa história de perto. O belíssimo Theatro Melpômene, erguido em madeira e ferro no fim do século XIX, foi desmontado numa transformação urbana. Parte da estrutura foi reaproveitada por André Carloni na construção do Teatro Carlos Gomes. Perdemos uma obra extraordinária. Ganhamos outra.
Cidade é assim. Nunca fica pronta. Quem espera que fique está torcendo contra a própria história.
Todo empreendimento novo tem direito automático a um coro de apocalípticos: o bairro vai acabar, a praia será destruída, o trânsito vira inferno, a vila perde a alma. Entendo o incômodo de quem escolheu um lugar bucólico e quer guardá-lo só para si.
Mas balneário bonito, bairro periférico com potencial e vazio urbano bem localizado são exatamente o tipo de território onde o crescimento se torna inevitável, é a ordem que sempre aconteceu em qualquer canto do mundo.
A pergunta não é se a cidade vai crescer. É como ela vai crescer.
Jardim Camburi levou seu empurrão nos anos 1990, já sob regras mais rigorosas, e virou um bairro vivo, com autonomia de quem não depende do carro para tudo, estanque, autossuficiente.
No Alto da Dona Augusta, em Cariacica, o roteiro se repete tardio: onde quase não havia cidade, chegam ruas, prédios com muito planejamento. É raro assistir um bairro nascer assim, em vez de consertar o estrago depois.
Em balneário, a régua é mais alta. Não basta erguer prédio bonito. É preciso ajudar a construir lugar bom para viver e conviver.
O “urbanismo gentil” é quando uma empresa entende que sua responsabilidade não termina no muro do prédio. Adota uma praça, recupera uma trilha, senta à mesa para discutir a cidade que segue ali depois dos prédios entregues.
Em Iriri, a maior construtora da região, a Riviera, recuperou o acesso à Praia da Costa Azul, área até então abandonada, e reuniu o setor para discutir mirante, trânsito binário e entrada de ônibus nos dias de pico. Isso não substitui o poder público, mas pode trabalhar junto com ele.
Detalhe curioso: os empreendimentos novos ali vêm com garagens generosas, muitas vezes duas vagas por apartamento, não para colocar o carro no centro da vida, mas para tirá-lo de cena. O morador chega, estaciona e resolve o dia a pé. Praia, padaria, comércio, praça, tudo num raio caminhável. É a cidade de 15 minutos formando-se sozinha, antes de o conceito virar pauta de congresso.
Talvez esteja aí a resposta para os balneários que começam a crescer agora: receber o automóvel sem entregar a cidade a ele. Garagem suficiente para a rua não virar estacionamento, calçada e praça organizadas para ninguém precisar ligar o carro a cada compromisso do dia.
Prédio não é inimigo da cidade. Prédio sem planejamento, sem afastamento correto e sem compromisso com o entorno, esse sim pode ser.
O progresso não pede licença. Mas pode aprender boas maneiras. As melhores empresas não entregam apenas apartamento. Ajudam a deixar, do lado de fora da porta, uma cidade melhor do que encontraram.