Muitos são os debates sobre o baixo desempenho estrutural da economia brasileira. Seminários e encontros são realizados para debater o tema. Proponho olharmos para o relatório do Índice de Qualidade da Elite (EQx, em inglês), que é uma medida comparativa das elites dos países.
Trata-se de um índice que mede a capacidade dos modelos de negócios das elites em um país para criar valor, ao invés de apenas extrair valor das sociedades. A metodologia empregada entende que as elites têm uma capacidade crítica de coordenação dos recursos da economia.
Ao moldar as instituições que permitem essa coordenação, as elites determinam a qualidade do desenvolvimento humano e econômico dos países, a riqueza das nações, bem como a sua ascensão e queda. Nenhuma surpresa, por enquanto.
Restam poucas dúvidas de que o poder econômico tem muita influência nas democracias liberais. O poder econômico e a influência política são conceitos interligados, pois a capacidade de controlar recursos financeiros impacta nas decisões e no curso da política.
Em sua coluna no UOL, de 20 de outubro, Leonardo Sakamoto revelou uma investigação feita por Tiago Mali e Julia Affonso sobre o “Congresso paralelo”. De acordo com o colunista, “lobistas, não raro, operam nas sombras, entrando e saindo de gabinetes para defender as necessidades de um grupo que pode pagar bem pelo serviço contra os interesses do restante da população”.
Nos últimos dois meses, foram analisados 345 mil documentos do Congresso, com a ajuda de um software estatístico, que identificou aproximadamente 2.000 proposições redigidas por lobistas desde 2019. As entidades empresariais estão por trás de quase 60% dos textos de lobistas identificados.
O EQx avalia o grau de criação de valor dos modelos de negócios. O índice em questão procura provocar uma discussão pública construtiva e baseada em evidências sobre as elites e sobre como elas contribuem, ou não, para as sociedades.
Elites de alta qualidade executam modelos de negócios que criam valor, ou seja, ofertam mais à sociedade do que extraem. As elites de baixa qualidade, por outro lado, operam modelos de extração de valor das sociedades.
No relatório sobre as elites, o EQx de 2025, o ranking foi composto por 151 países. O Brasil ocupou a posição de número 72, em um nítido contraste com o seu peso econômico mundial. Doze pilares sustentam a composição do EQx, conforme detalha a metodologia apresentada no relatório.
Como pode um país estar entre as dez maiores economias e a qualidade de suas elites ser relativamente tão ruim? Reconhecer que somos um país que passou por um longo processo de colonização de exploração da natureza e de humanos é necessário. Também é preciso reconhecer que a escravidão deixou marcas profundas entre nós.
A criação de valor para o longo prazo requer mudanças na política econômica, bem como nos modelos de negócios vigentes. Devemos levar em conta ainda a equidade intergeracional na formulação das políticas públicas.
Segundo a metodologia do EQx, as elites brasileiras são vistas como altamente extrativas, algo que se traduz na prática de que elas extraem mais valor da sociedade do que criam. Tal perspectiva nos ajuda a compreender a lógica do reformismo regressivo, concentrador de rendas e patrimônios.
Conforme mostrou o IBGE, houve crescimento de 25,4% de pessoas no trabalho plataformizado, entre 2022 e 2024. O Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços em 2024.
A região Sudeste concentrou 53,7% desses trabalhadores. Os números mostraram que 86,1% dos plataformizados eram trabalhadores por conta própria, sendo que 71,1% estavam na informalidade. Sabemos que a alta e crônica taxa de informalidade laboral, mesmo após a reforma trabalhista (2017), tem um impacto negativo nas contas da Previdência Social.
A desindustrialização, o empobrecimento da estrutura produtiva, a reforma trabalhista e o enfraquecimento dos sindicatos contribuíram para as perdas dos trabalhadores brasileiros. Nesse sentido, está claro que a qualidade das elites importa.