O ex-presidente republicano Donald Trump ficou ferido na orelha após tiros serem disparados enquanto discursava em um comício no dia 13 de julho, na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Para o Federal Bureau of Investigation (FBI), os tiros contra Trump foram uma tentativa de assassinato.
Tal fato não seria uma novidade na história política norte-americana. Não é bem sobre esse episódio que irei tratar, ainda que os temas deste artigo tenham relação com o acontecimento em questão. Em "A Democracia na América", Alexis de Tocqueville discutiu extensivamente a “tirania da maioria”, o conformismo social, a ilusão de igualdade e o despotismo suave.
Alexis de Tocqueville abordou diversos aspectos da democracia americana do século XIX. Ele admirava muitos elementos da democracia, mas também expressava preocupações e críticas, especialmente sobre a “tirania da maioria” e a ilusão de igualdade que a democracia poderia criar.
Tocqueville observou que a democracia poderia levar a uma conformidade excessiva e à pressão social para se alinhar com a maioria, suprimindo a diversidade de opiniões e a liberdade individual. Ele argumentou então que, na busca por igualdade, a democracia poderia inadvertidamente nivelar a sociedade para baixo, promovendo mediocridade em vez de excelência.
Além disso, Tocqueville temia que a centralização do poder estatal pudesse crescer sob o disfarce de proteger a igualdade e a liberdade, resultando em um novo tipo de despotismo. Aqui estão alguns pontos das suas preocupações:
1. Tirania da maioria (populismo): Tocqueville alertou que a democracia pode permitir que a maioria imponha sua vontade sobre a minoria, suprimindo vozes dissidentes e criando uma forma de tirania mais sutil, mas igualmente opressiva.
2. Conformismo social: Ele notou que a pressão para se conformar às opiniões e normas da maioria poderia sufocar a originalidade e a diversidade de pensamento, levando a uma sociedade na qual a liberdade individual é comprometida.
3. Ilusão de igualdade: Tocqueville argumentou que a ênfase na igualdade poderia levar a uma sociedade na qual a mediocridade é celebrada e a excelência é desencorajada.
4. Despotismo suave: Tocqueville temia que a centralização do poder e a burocratização sob a democracia pudessem levar a um novo tipo de despotismo, no qual o Estado se tornasse excessivamente paternalista, controlando muitos aspectos da vida dos cidadãos, sob o pretexto de promover a igualdade e o bem-estar.
Essas preocupações citadas acima destacam os desafios e as complexidades da democracia contemporânea, mostrando que, embora ela tenha muitas virtudes, também possui armadilhas potenciais que precisam ser cuidadosamente gerenciadas pelas instituições mediadoras.
Segundo David Runciman, cientista político e professor da Universidade de Cambridge, em "Confrontando o Leviatã", editado pela Todavia, em 2023, o clássico de Tocqueville, dividido em dois volumes publicados em 1835 e 1840, é um trabalho fundamental sobre os Estados Unidos. Esse não seria o único registro relevante no período.
Citando Charles Dickens, em viagem feita nos Estados Unidos, em 1842, Runciman afirmou que “a América parecia ótima na superfície, mas por baixo provavelmente estava apodrecida”. Dickens, segundo Runciman, “começou a achar que, sob a reluzente superfície da vida americana, por baixo e por trás de toda aquela agitação irresistível, havia algo mais enganoso, mais corrupto, mais hipócrita”.
A escravidão entendida como "pecado original" chocava Dickens, assim como ele ficou horrorizado com a forma de os americanos buscarem esconder a sua corrupção com a linguagem da democracia. As pessoas não se sentiam responsáveis pelos seus erros porque viviam em uma sociedade tão dinâmica que nem os seus erros demorariam a serem apagados pelo progresso. A fé no progresso ainda faz algum sentido nas ruínas do paradigma neoliberal?