Na edição de dezembro de 2022 da publicação Finance & Development, do Fundo Monetário Internacional (FMI), há o interessante artigo de Daniel Yergin, vice-presidente da S&P Global, que merece uma atenta leitura. O artigo versa sobre os choques na transição energética em um contexto de tensões geopolíticas. Farei alguns breves comentários sobre o assunto.
De acordo com Yergin, “se a segurança energética é o primeiro desafio da transição, o tempo é o segundo”. A tarefa é complexa e difere, segundo o autor, das transições passadas, que foram comandadas por fatores tecnológicos e econômicos. Desta vez, fatores políticos buscam direcionar as mudanças técnicas percebidas como necessárias por conta dos riscos climáticos.
Há pressões internacionais para acelerar as metas de emissão de carbono de 2050 para 2030. Quanto ao tempo histórico das mudanças tecnológicas, Yergin ressaltou que “cada uma das transições anteriores se desenrolou ao longo de um século ou mais, e nenhuma foi o tipo de transição atualmente prevista”. A escala da transição é tão grande que o impacto macroeconômico precisa de análises profundas.
Yergin citou que a busca por acelerar as metas de redução líquida de emissões de carbono de forma agressiva poderia criar rupturas econômicas muito maiores do que o previsto, algo próximo aos choques da década de 1970. Incentivos e renúncias fiscais precisam ser repensados, assim como os sistemas tributários e creditícios.
Trazendo a contribuição do economista Jean Pisani-Ferry, o autor argumentou que “a ação climática se tornou uma importante questão macroeconômica, porém a macroeconomia da ação climática está longe do nível de rigor e precisão que agora é necessário para fornecer uma base sólida para discussões públicas e orientar adequadamente os formuladores de políticas”.
Para os países em desenvolvimento, destacou Yergin, “o que parece ser uma ênfase singular na redução de emissões precisa ser equilibrada com outras prioridades urgentes – saúde, pobreza e crescimento econômico”. Tal fato requer reformas que considerem efetivamente essas questões de bem-estar social e sustentabilidade. Não foi esse o caso do Brasil desde 2016 e hoje vivemos uma grave crise social de insegurança alimentar.
TENSÕES NEOCOLONIAIS
Tensionamentos de relações neocoloniais estão ocorrendo, ponderou o autor. Yergin citou um caso ocorrido na África quando o Parlamento Europeu votou, em setembro de 2022, por condenar a construção de um oleoduto de Uganda, passando pela Tanzânia até o Oceano Índico. Afinal, qual é mesmo a autoridade histórica e moral europeia para ditar termos na África no século XXI? Os bancos ocidentais e as instituições financeiras multilaterais fecharam o financiamento de oleodutos, bem como de portos e outras infraestruturas relacionadas ao desenvolvimento de hidrocarbonetos. Um ministro africano da Energia resumiu o episódio como semelhante a "remover a escada e pedir-nos para saltar ou voar".
Outro desafio descrito no artigo diz respeito a construir cadeias de suprimentos para o zero líquido de emissões. Para tanto, já existem estudos e iniciativas na Europa e nos Estados Unidos. O ponto de estrangulamento identificado para acelerar a transição tecnológica pela via da eletrificação é a oferta de recursos naturais, principalmente de cobre.
Daniel Yegin recordou que “como tem sido o padrão histórico, o aumento da demanda e dos preços provavelmente criará novas tensões entre os países detentores de recursos e as empresas de mineração, o que, por sua vez, afetará a taxa de investimento”. Nesse sentido, a disputa entre China e Estados Unidos por áreas de influência não pode ser desconsiderada.
Os conflitos geopolíticos e as preocupações com a segurança nacional estão alimentando guerras comerciais, financeiras e tecnológicas, acelerando o processo de desglobalização. O provável retorno do protecionismo deixará a economia global, as suas cadeias de suprimentos e os mercados mais fragmentados.
Como sabemos, fatores de oferta são decisivos nos atuais processos inflacionários no mundo. Essa inflação, por sua vez, eleva o risco de que os apertos monetários produzam um pouso econômico forçado, precarizando ainda mais os empregos, potencializando recessões e crises sociais. As democracias liberais resistiriam à confirmação desse cenário, caso optem por novas medidas macroeconômicas austeras?