O IBGE divulgou recentemente a taxa de desocupação, da ordem de 7,7% para o trimestre encerrado em setembro de 2023. Houve avanços no rendimento real habitual em relação ao trimestre anterior e em relação ao mesmo período do ano passado. Com uma informalidade laboral vivida por 39 milhões de trabalhadores, o período registrou a menor taxa de desocupação desde o trimestre encerrado em fevereiro de 2015.
A taxa composta de subutilização laboral foi de 17,6%, uma realidade vivida por 20 milhões de trabalhadores. Somando os números da informalidade com a subutilização laboral, para depois dividir pelo total de pessoas ocupadas no período, o resultado se aproxima de uma taxa de 60% de precarização no mercado de trabalho brasileiro, de acordo com os dados do IBGE para o trimestre encerrado em setembro. Esse é um dos retratos da nossa trágica normalidade cotidiana.
Conforme busquei mostrar em artigos anteriores, os últimos dez anos foram trágicos em termos de renda e qualidade de empregos para os brasileiros que se esforçaram para estudar mais. Perdeu mais quem mais estudou nos últimos dez anos, segundo a pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), divulgada em setembro, com base nos dados do IBGE.
Em entrevista ao programa Boa Noite Espírito Santo, no dia 31 de outubro, destaquei então alguns aspectos da respectiva pesquisa. Brasileiros mais escolarizados foram empurrados para as ocupações que pagam menos e que são, cada vez mais, informais, comprometendo o crescimento potencial do país. As perspectivas profissionais da nossa juventude foram afetadas negativamente.
Uma estrutura produtiva de baixa sofisticação tecnológica vem revelando o seu custo social. Para quem estudou 16 anos ou mais, a queda real foi de 16,7% na renda do trabalho. A informalidade laboral cresceu mais entre quem estudou mais. Em síntese, estão sendo geradas ocupações ruins, que pagam pouco e que são de baixa produtividade intrínseca.
A base de dados World Inequality, disponível online, revela a extrema desigualdade estrutural brasileira. O 1% mais abastado concentra 49% da riqueza nacional. Dificilmente se pode alegar que esse seria o retrato de uma suposta meritocracia em um território que conviveu com quase quatro séculos de escravidão e ciclos extrativistas predatórios.
Caso as políticas públicas continuem reforçando esse quadro, dificilmente poderemos esperar por resultados diferentes no horizonte. Sabemos que a excessiva concentração de riquezas pode reforçar aspectos perversos da preferência pela liquidez da parte de uma minoria abastada. Concentrações excessivas de riquezas e poder distorcem inclusive os processos políticos nas democracias liberais, colocando a própria democracia em risco. Metade do crescimento econômico fica com os 5% mais ricos no Brasil.
No caso do Brasil, ocorreram debates sobre se o país estaria preso na "armadilha da renda média". A economia brasileira experimentou ciclos de crescimentos significativos e avanços em várias áreas, porém enfrentou desafios estruturais e questões persistentes que dificultaram a transição para um patamar de renda per capita relativamente mais alto.
Os elementos que configuram a "armadilha" são: desigualdades sociais extremas; infraestrutura insuficiente; burocracia e ambiente de negócios difíceis; dependência de commodities; instabilidade política. Uma maior diversificação da economia e a redução das desigualdades sociais extremas são cruciais para a superação do subdesenvolvimento. O fato é que a economia brasileira ainda depende fortemente da exportação de commodities, algo que a torna suscetível a flutuações de preços no mercado global e a instabilidades políticas internas.
Recomendações técnicas para políticas públicas, imersas em visões de mundo, costumam apontar para a efetivação de reformas estruturais capazes de impulsionar o crescimento econômico, a produtividade e a competitividade, ajudando o país a avançar para um estágio de renda per capita relativamente mais elevado. As reformas regressivas realizadas e experimentadas nos últimos dez anos não estão nos conduzindo para um cenário virtuoso.