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Economia

Desafios multidimensionais da estagflação no Brasil

Causa preocupação a perspectiva de estagnação econômica com inflação alta colocada para 2022 no país

Publicado em 15 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

15 nov 2021 às 02:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

medrodrigo@gmail.com

Divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) acumulou alta de 16,74% no ano até outubro e cresceu 21,73% em doze meses. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) subiu 26,00% em doze meses e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) aumentou 9,50% no mesmo período. Novos repasses de preços são esperados e o cenário econômico tende à estagflação, ou seja, estagnação econômica com inflação alta.
Os preços da alimentação cresceram 10,45% em doze meses, sendo que os produtos agropecuários apresentaram alta de 25,90% no mesmo período. Os preços da habitação subiram 11,56% e o dos transportes 15,90% em doze meses. Não é preciso muito esforço intelectual para perceber que essa conta cai pesadamente sobre os mais pobres no Brasil, principalmente quando se avalia o efeito combinado da precarização do mercado de trabalho, das baixas perspectivas de desempenho da economia, do avanço da fome e da insegurança alimentar.
A matéria assinada pelo repórter de economia Douglas Gavras, no jornal "Folha de S.Paulo", de 7 de novembro, trouxe dados e informações relevantes para a reflexão. De acordo com Gavras, “dois cenários antagônicos marcam a distância de renda, desempenho e oportunidades entre a base e o topo da pirâmide - um fosso que conseguiu crescer ainda mais durante a pandemia do novo coronavírus”.
Citando um relatório do banco Credit Suisse, a matéria mostrou que a desigualdade brasileira cresceu em 2020, na crise sanitária, quando o 1% mais rico concentrou a metade da riqueza do país. O Brasil ficou apenas atrás da Rússia em um ranking de dez países, sendo o país analisado com a maior queda da renda e do patrimônio total da população. O país ganhou 40 novos representantes na lista de bilionários de 2021 da revista "Forbes".
Estímulos monetários dos bancos centrais favoreceram os mais ricos através dos mercados de capitais. A valorização de ativos financeiros não significou melhores perspectivas para os trabalhadores, ou para quem busca trabalho decente. Nesse sentido, causa preocupação a perspectiva de estagflação colocada para 2022 no Brasil.
Como síntese, a matéria apontou para o fato de que “enquanto boa parte dos trabalhadores viu o mercado de trabalho derreter e passou a depender de programas temporários de transferência de recursos, como o auxílio emergencial, gigantes do varejo, empresas de e-commerce e farmacêuticas aumentaram seus lucros no período, o que se refletiu na valorização dos ativos dos bilionários”. A recuperação aconteceu efetivamente para os ricos.
Reformas têm sido feitas desde 2016 no Brasil. A reforma tributária, necessária, travou no Congresso porque está difícil sustentar a regressividade do sistema e ao mesmo tempo manter a Emenda Constitucional 95/2016, que versa sobre o teto dos gastos primários. O que poderia ser feito com as renúncias fiscais nacionais anualmente, da ordem de 3,95% do PIB, e com as renúncias fiscais subnacionais? O que poderia ser feito com os recursos da enorme sonegação fiscal anual no Brasil?
Mesmo em uma democracia frágil e esteticamente formal, nos termos colocados pelo Latinobarómetro em seu mais recente informe, os votos de trabalhadores e pobres contam para eleger políticos e pressionar por melhorias nas condições gerais de vida. O Brasil precisa lidar com as deteriorações do seu ambiente doméstico de negócios, da sua imagem internacional e de indicadores relevantes da sua economia.
Discussões recentes na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26) revelam o risco que o Brasil corre em ficar obsoleto do ponto de vista da sua estrutura produtiva. Jamil Chade, em sua coluna de 8 de novembro no UOL, afirmou que existem riscos de um caminho irreversível “do modo de vida de bilhões de pessoas pelo mundo, com um impacto severo sobre o consumo e acesso à água”. Segundo o jornalista, essa é uma das conclusões que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicará no seu próximo informe, previsto para fevereiro de 2022.
No rascunho do documento citado, consta que “a incapacidade de governos de limitar o aquecimento para 1,5° C e a falta de um plano de adaptação terão consequências devastadoras”. Eventos extremos causarão situações extremas em diversas regiões do planeta, principalmente para populações vulneráveis. Se nada for feito para limitar o aquecimento global, os meios urbanos viverão um cenário distópico, de ampliação das desigualdades, da pobreza, da informalidade e da precariedade.
A insegurança hídrica já merece muita atenção no Brasil, assim como os impactos esperados na economia com o aquecimento global. O IPCC deverá trazer ainda o fato de que “os riscos climáticos podem ser um potencial multiplicador de risco de violência política e conflito armado em situações de fragilidade política e socioeconômica”. Afinal, os debates públicos estão à altura dos desafios multidimensionais no Brasil? O futuro não necessariamente será a marcha inexorável do progresso humano no planeta.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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