Em “Como evitar um desastre climático”, Bill Gates, especialista em tecnologia, empresário e filantropo, trouxe propostas e reflexões relevantes para o tempo presente. Publicado pela Companhia das Letras, o livro em questão merece a nossa atenção. Farei apenas alguns breves comentários sobre algumas de suas passagens.
Logo na introdução do livro, Gates chamou a nossa atenção para o fato de que “todos os países terão que mudar seus hábitos”. O autor ressaltou que “o mundo precisa gerar mais energia para que os mais pobres possam prosperar, mas sem liberar mais nenhum gás de efeito estufa”. As desigualdades sociais extremas são problemáticas do ponto de vista ambiental em diversas regiões do planeta.
Gates citou informações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) e de outras fontes confiáveis ao longo do livro. Destaco, nesse sentido, as evidências de que “a mudança climática está intensificando a condensação das tempestades e aumentando a frequência com que ocorrem as mais intensas”. Os mais pobres serão os mais afetados.
A transição para um paradigma de vida sustentável do ponto de vista ambiental não será fácil, reconheceu o empresário. No entanto, ele apresentou propostas que podem nos ajudar a enfrentar o processo de adaptação a essas mudanças climáticas ao longo deste século, enfatizando o problema do custo dos “prêmios verdes” das tecnologias alternativas.
Propor soluções tecnológicas que custem relativamente mais não garantirá que elas sejam amplamente utilizadas. Gates afirmou a relevância das políticas públicas voltadas para o desenvolvimento de novas tecnologias e da sua ampla adoção. Falando dos Estados Unidos, ele afirmou que “jamais conseguiremos emissões zero sem políticas públicas adequadas, e ainda estamos longe disso”.
A precificação dos mercados tampouco ajuda a necessária transição energética global. Há externalidades, como é o caso das emissões de gases de efeito estufa, que não estão incluídas nos preços de produtos e serviços. Os combustíveis fósseis, segundo Gates, “fornecem dois terços da eletricidade mundial”, em um contexto no qual o carvão e o gás natural são os combustíveis mais utilizados nos países desenvolvidos.
Citando um estudo europeu, Gates revelou que a descarbonização de sua rede elétrica em até 95% elevaria os preços das tarifas médias em aproximadamente 20%. O caso seria pior em termos de prêmio verde para a Ásia. A China, por exemplo, utiliza usinas elétricas a carvão muito baratas. O custo de uma termelétrica chinesa foi derrubado em 75%, algo que atrai outros países em desenvolvimento daquela região para essa tecnologia.
O fato é que as fontes renováveis ainda apresentam muitos problemas. De acordo com Gates, “armazenar eletricidade em larga escala é complicadíssimo e caríssimo, mas teremos que fazer isso se vamos depender de fontes intermitentes para gerar uma porcentagem significativa da eletricidade limpa que consumiremos nos próximos anos”.
Bill Gates aposta na tradicional curva de aprendizado industrial, ou seja, quanto mais formos capazes de produzir uma tecnologia, mais eficientes conseguiremos nos tornar em algum momento. Nesse sentido, as políticas públicas são relevantes no estímulo ao desenvolvimento de novas tecnologias e no seu amplo processo de utilização.
Incentivos e renúncias fiscais precisam ser repensados, inclusive nas nossas unidades federativas, assim como os sistemas tributários e creditícios. Trata-se de um desafio histórico complexo de esforço coletivo a ser coordenado. O Brasil está maduro institucionalmente para realizar tal esforço? Políticas públicas devem fazer a diferença, pois não podemos aceitar passivamente práticas fraudulentas de “lavagem verde” (greenwashing).
Essa expressão surgiu por ser uma forma de as empresas enganarem as pessoas quando utilizam estratégias fraudulentas de marketing. Trata-se, portanto, de um problema grave por vivermos em uma situação crítica de emergência climática. Adotar uma postura ambientalmente responsável significa estimular a organização de toda a cadeia produtiva e rever processos sob a perspectiva da sustentabilidade.
A assimetria de informação costuma ser onipresente nos mercados, sendo esse fenômeno mais complexo em países não desenvolvidos. Políticas públicas regulatórias são também relevantes para atenuar esse tipo de problema. Como exemplo, ponderou Gates, “políticas públicas inteligentes poderiam criar incentivos para o emprego da captura de carbono”.
Em síntese, destacou Gates, “precisaremos de mudanças nas políticas públicas, bem como de alguns avanços tecnológicos”. Alguns desses avanços ele buscou detalhar ao longo dos capítulos do livro, que merece ser lido. Teremos que mudar as formas como vivemos, produzimos e transportamos para nos prepararmos para a adaptação em um mundo mais quente.