A poupança pode parecer apenas aquele dinheiro que guardamos no banco no fim do mês, mas, quando olhamos pela lente da macroeconomia, ela se revela uma peça importante para o crescimento e a estabilidade de uma nação. Longe de ser só o saldo individual, a poupança nacional é a parcela da renda total do país que não foi consumida.
Essa poupança se constrói em três frentes. A poupança privada é a sobra da renda de famílias e empresas depois do consumo e dos impostos. A poupança pública é o que o governo economiza: há poupança positiva quando as receitas (impostos) superam as despesas (superávit orçamentário), mas se o gasto for maior, temos uma poupança negativa (déficit). Por fim, a poupança externa é o que o país economiza do resto do mundo, refletido na conta-corrente: um déficit significa que o país está tomando emprestado. A soma dessas três partes é o que define a força de poupança do país.
O grande motor da economia é o investimento, que é o gasto das empresas em bens de capital – como máquinas, fábricas e equipamentos – para expandir suas capacidades produtivas. É aqui que a poupança entra.
Na visão da economia clássica, a poupança é a fonte que financia o investimento. Nessa lógica, se a poupança de um país é baixa, seu investimento também será, limitando o potencial de crescimento econômico de longo prazo.
Já na visão da economia keynesiana, essa lógica se inverte: é o investimento que determina a poupança. O investimento é impulsionado pelas expectativas de lucro (o “espírito animal” dos empresários). Quando ele aumenta, gera mais renda, e é essa renda crescente que permite às pessoas pouparem mais. Para Keynes, a poupança baixa é um sintoma de falta de dinamismo na economia.
Em qualquer perspectiva, a conclusão é clara: sem poupança, não há futuro para o investimento e, consequentemente, para o aumento da prosperidade nacional.
O Brasil está em uma situação delicada. Nossa taxa de poupança (poupança bruta como porcentagem do PIB) foi de 16,6% em 2023, acompanhada por uma taxa de investimento de 16,5%.
Este patamar é significativamente mais baixo que a média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que foi de 22,9% no mesmo período, e está muito aquém de países emergentes, como a China, que poupam historicamente acima de 40% do seu PIB. Essa baixa taxa limita nosso investimento e nos torna dependentes da poupança externa para financiar nosso crescimento.
O problema é multifatorial e abrange as duas visões macroeconômicas:
- O dreno do setor público (fator clássico): o principal vilão é a poupança pública negativa. Em vez de contribuir, o governo, com seu histórico de déficits orçamentários, drena a poupança privada para financiar sua dívida. Some-se a isso a insegurança jurídica e econômica, que desincentiva a poupança de longo prazo e o investimento em ativos produtivos;
- Renda baixa e desigualdade (fator keynesiano): como grande parte da população tem uma renda per capita relativamente baixa e convive com a alta desigualdade, a maioria consome quase a totalidade do que ganha, restando pouco para a poupança. Isso se retroalimenta com a baixa taxa de investimento produtivo, causada por um ambiente de negócios desfavorável (alta carga tributária, infraestrutura deficiente). Sem o investimento necessário, a renda não cresce, e o ciclo de baixa poupança se mantém.
Para reverter esse quadro e impulsionar o crescimento sustentável, o Brasil precisa de ações coordenadas que abordem as duas perspectivas. Do lado estrutural (clássico), é fundamental a reforma fiscal, buscando o superávit orçamentário para que o governo contribua positivamente. Além disso, garantir a sustentabilidade de longo prazo da previdência incentiva a poupança privada. Do lado do dinamismo (keynesiano), é preciso estimular o investimento, criando um ambiente de negócios mais atrativo, com menor burocracia e mais segurança jurídica, para despertar o entusiasmo dos investidores. Ao mesmo tempo, políticas de renda e combate à desigualdade são cruciais, pois o aumento da renda das classes mais baixas, à medida que a economia cresce, se traduz em maior capacidade de poupança para o país como um todo.
A poupança é, em última análise, uma ponte para o nosso futuro. O desafio do Brasil está em encontrar esse equilíbrio – seja pelo ajuste fiscal, pelo estímulo ao investimento, ou por uma combinação de ambos – para garantir um futuro mais próspero e menos vulnerável.