Apesar do que o Christopher Nolan anda fazendo na atualidade, ainda prefiro o Francis Ford Coppola, afinal o conjunto da sua obra cinematográfica é espetacular. Além da trilogia de “O Poderoso Chefão” e os impactantes “Apocalypse Now” e “Dracula de Bram Stoker”, que já seriam suficientes, ele ainda fez filmes que, mesmo sem tanto sucesso comercial, são inesquecíveis, como o “Selvagem da Motocicleta” e “O fundo do coração”.
Mas tem outro diretor que considero no mesmo nível de Coppola: Stanley Kubrick. Mas dele citaria “Laranja Mecânica” e, claro, “2001: Uma Odisseia no Espaço”. O filme estreou no cinema em abril de 1968, ou seja, há 57 anos. O roteiro, coescrito com o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, possui uma narrativa que mescla diversos temas, além das futuras viagens interplanetárias, que é uma das bases sobre a qual a história se desenvolve.
Um dos pontos-chave do enredo é a participação do sistema robótico HAL 9000, na verdade o computador da espaçonave Discovery One, responsável por conduzir a equipe de astronautas a Júpiter. HAL é o que hoje chamamos de inteligência artificial, e que, numa determinada situação extremada, toma uma decisão contrária à equipe, colocando-os em perigo.
Hoje o tema da inteligência artificial (IA) é um dos mais discutidos no mundo. De um lado estão os apaixonados pelo tema e pelos recursos oferecidos por tal tecnologia. Do outro, aqueles que pregam cautela, buscando debater regramentos éticos que possam proteger diversas áreas do conhecimento humano, incluindo a produção de conteúdo artístico e cultural.
Mas talvez também haja aqueles que preferem um caminho do meio, sem extremismo, e no qual eu me incluo.
No âmbito do urbanismo, por exemplo, há algum tempo que se vem usando a expressão “cidades inteligentes”. Trata-se de cidades que usam diversos sistemas digitais e de comunicação para otimizar os serviços prestados aos seus cidadãos, como o monitoramento do trânsito, de modo a controlar, por exemplo, a sinalização semafórica, de acordo com o fluxo de veículos e deslocamentos ativos de pedestres e ciclistas.
Ou seja, esse é um caso no qual qualquer sistema informático devidamente qualificado tem capacidade superior de processamento de dados ao das pessoas para monitorar algo e agir, regulando o dispositivo por ele controlado, beneficiando o conjunto dos cidadãos que utilizam o espaço urbano.
Além dos dispositivos voltados para a mobilidade urbana, já existem sistemas que monitoram a iluminação pública, a rede de drenagem pluvial e até mesmo os coletores de lixo doméstico (lembrando que em muitos países o lixo não é coletado porta a porta, ou seja, é o cidadão que deve descartá-lo em locais próprios, definidos pela municipalidade).
Toda tecnologia sempre se mostrou como um paradoxo para a humanidade. Como a história já nos mostrou, cada ferramenta criada com intuito de auxiliar as atividades humanas sempre pode ter seu uso corrompido e desvirtuado pelo próprio homem, perdendo os benefícios para os quais ela foi criada.
Às vezes o desajuste ou malefício nem é intencional, apenas uma falha no uso ou pane do sistema.
Imagine-se o trânsito na hora do rush controlado por um computador automatizado que, por conta de algum apagão elétrico, pare de funcionar. Os otimistas tecnológicos dirão que isso não pode ocorrer porque o sistema possui backups e geradores que impedem qualquer tipo de deficiência operacional.
Mas não foi o que vimos em apagões recentes, tanto no Brasil, como na desenvolvida Europa semanas atrás.
Além disso, caso a pane seja provocada por um ataque cibernético, os autores do atentado possivelmente conseguirão derrubar qualquer proteção do próprio sistema que estão atacando.
Esse, aliás, é um tema recorrente nas produções cinematográficas atuais, que adoram uma catástrofe. Mas o cinema sempre tem um herói galã para resolver tudo e proporcionar um final feliz.
No mundo real, o mais provável é que venha uma enorme verborragia entre grupos políticos rivais acusando-se mutuamente pelo caos resultante. Como se sabe, porém, depois da tempestade sempre vem a bonança e logo tudo é esquecido.
O fato é que a IA está aí e o desafio é saber como devemos utilizá-la, quais são seus limites éticos e sociais, pois uma das possíveis consequências é o desaparecimento de milhares de postos de trabalho. Há ainda questões até mesmo jurídicas a serem consideradas, afinal, em caso de um erro de conduta, pessoas podem ser responsabilizadas.
E no caso das máquinas autônomas?