“É provável que todos os governos do mundo venham a ser mais ou menos totalitários (...). Só um movimento popular em grande escala, tendo em vista a descentralização e o auxílio individual, poderá travar a atual tendência para o estatismo." ("Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley, prefácio à edição de 1946)
O mundo contemporâneo tem se mostrado cada vez mais contraditório e conflituoso, com polaridades justapostas, sem qualquer tipo de mediação que seja capaz de apaziguar os diversos grupos sociais que coexistem num mesmo espaço, como se vê nas cidades brasileiras, mas também em diversos países, em todos os continentes.
A atual polarização política brasileira aparentemente continuará acirrada, dificultando a implantação de projetos cujas intenções nada mais são do que ações em prol da própria sociedade brasileira.
E aí, por mais contraditório que possa parecer, é que se torna ainda mais necessário fazer política. Mas é claro que um bom modo para começarmos a agir é pelas beiradas, atuando ao nosso redor e, para isso, nada melhor do que batalhar para fazer da nossa rua, do nosso bairro, ou até mesmo da nossa cidade, um lugar melhor, cada vez mais inclusivo, democrático, multicultural, festivo, ou seja, um ambiente de paz para vivermos bem, com nossos filhos, nossos amigos, nossos vizinhos.
Sabemos, porém, que dá trabalho, desanima, e que, para muita gente, ficar no sofá reclamando das coisas é bem mais fácil. Aliás, frequentemente, os que mais reclamam são os mesmos que nunca fazem nada...
Aqui na Grande Vitória, por exemplo, teve aqueles que acharam que acampar durante semanas no Parque da Prainha em Vila Velha era o caminho. Quem lá não esteve, nem deve ter entendido o que é que queriam. Melhor seria se os acampados tivessem aproveitado aquele período para conhecer melhor aquele lugar, um espaço com tanta história, sendo um dos primeiros núcleos históricos do Brasil.
Talvez agora tivessem algo realmente pelo que combater, que é defesa da memória daquela área.
Infelizmente, com poucas exceções, pode-se dizer que somos um povo sem história, ou melhor, que não valoriza a própria história. A depredação de bens memoriais em Brasília no início do ano, transmitido repetidamente por diversos canais de TV, é apenas uma pequena amostra da tragédia vivida pelo patrimônio histórico brasileiro.
E, contraditórios como somos, é até curioso notar como muitos dos que possuem uma melhor condição econômica, que podem viajar para o exterior, quando visitam cidades europeias, encantam-se com toda aquela história gravada na paisagem urbana em prédios e praças. Já quando estão aqui na terrinha acham que “patrimônio é algo que só atrapalha”, “quem vive de passado é museu”, e assim por diante.
Não, não estamos aqui defendendo uma preservação radical. É preciso ter claro que é importante ficar como registro do passado para as futuras gerações. Nem tudo que é antigo possui valor memorial que justifique o esforço coletivo demandado por ações de preservação.
Além disso, independentemente de quais sejam os critérios históricos, culturais, paisagísticos, ambientais, econômicos e até mesmo afetivos estabelecidos, sempre podem ocorrer consequências inesperadas ou inadequadas como é, por exemplo, deixar um bem entrar em ruína, só por que se quer preservar a todo custo, ou mesmo como ocorre em partes do continente europeu, ao ponto de ele ser chamado, até por quem lá vive, de “parque temático do passado”.
Mas esse não é o caso do Parque da Prainha, localizado em região que abriga o Morro e o Convento da Penha, a Igreja do Rosário, o Forte de Piratininga, o Museu Homero Massena, a Casa da Memória de Vila Velha, além da frente marítima para a Baía de Vitória, bem como pitoresco casario.
Tal como se encontra, o parque não reflete sua importância e tampouco harmoniza-se devidamente com seu rico entorno. Uma intervenção, para revitalizá-lo, se faz necessária.
Isso, porém, não deve ser feito a qualquer preço, ou melhor, sem critérios que levem em conta os aspectos memoriais do lugar, incluindo os conceitos arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos relacionados ao patrimônio, tanto quanto dialogando com a comunidade que ali vive que, de certo modo, também é responsável pela preservação daquela região.
Lamenta-se, portanto, que a própria Prefeitura Municipal de Vila Velha não tenha feito nada disso ao iniciar as obras de reforma do Parque da Prainha. Os serviços chegaram a ser suspensos por determinação do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), mas provavelmente em algum momento as obras retornarão.
Bom seria se a PMVV aproveitasse a oportunidade para chamar a comunidade para dialogar, ouvindo ainda técnicos na área do patrimônio histórico, visando definir um projeto conciliador capaz de valorizar todo o potencial que o lugar enseja.