Atos de violência como o presenciado no dia 12 de abril em Guarapari e amplamente divulgados pelas redes sociais, em que um motorista disparou vários tiros em um motoboy, confrontam a compreensão de que o brasileiro é um povo cordial e pacífico e reforça a teoria de Sérgio Buarque de Holanda.
A Visions of Humanity divulgou relatório em 2015, em que elaborava o Índice Global da Paz, que apontava que o Brasil ocupava a 103º posição entre 162 países analisados. Curiosamente, além de ser um dos países menos pacíficos, era o que mais investia em segurança. Investimentos milionários não reverberam na diminuição da violência e não contribuem para a mudança de uma cultura que se encontra arraigada no tecido social e se materializa na forma de resolução de conflitos que chancela a violência.
Na obra datada da primeira metade do século XX, "Raízes do Brasil", Sérgio Buarque de Holanda, ao afirmar que o povo brasileiro era cordial e pacífico, parece contraditório aos olhos de hoje: um país com a macabra marca de 57 mil pessoas assassinadas por ano, com altos índices de feminicídio, com milhares de vítimas de violência no trânsito e com a marca de 19 das 50 cidades mais violentas do planeta.
Contudo não é nada contraditório.
A cordialidade trabalhada, enquanto categoria, pelo historiador e sociólogo, relaciona-se com “cor” de coração, ou seja, aquela que é movida pelo impulso, emoção e afeto. Beirando o primitivo. Muito emocional, pouco racional. Vinculando-se mais por laços afetivos, e menos por relações institucionais. O que de certa forma explica, mas não justifica, as relações público-privadas, que estão na raiz de alguns fenômenos como a corrupção e a violência sistêmica.
Assassinar uma pessoa, gratuitamente, à luz do dia e à queima-roupa, por qualquer motivo, revela as consequências da formação de um povo que teve sua constituição a partir de atos de violência e profundas violações que compõem um repertório que constitui as raízes da violência.
A violência enquanto fenômeno multifacetado e multicausal, não pode estar, em sua compreensão, apartada das construções de relações, que ainda hoje são permeadas por formas de resolução de conflitos que apontam para acirramentos, em muitas das vezes, irreversíveis.
A situação se agudiza diante da reação de políticas de enfrentamento à violência que apostam em estratégias e táticas bélicas sempre que um fato de repercussão acontece e, ainda, quando há a autorização e incentivos de lideranças políticas para a utilização de armas, como fórmula mágica e instantânea, para o enfrentamento de um fenômeno que nos acompanha há mais de 500 anos.
A necessidade de se investir em políticas públicas de segurança com base na inteligência e tecnologia não preditiva; a urgência em se apostar em práticas de resolução de conflitos sociais fundados na comunicação não violenta e a retomada de campanhas de desarmamento da população se apresentam como medidas importantes para se evitar mortes como a que aconteceu em Guarapari, e assim tentar mudar a cultura de violência.
Quando se tem um país que possui uma herança arcaica de formação desde os primórdios, quando o interesse dos que aqui chegaram objetivara explorar e não estabelecer uma nação, temos os tentáculos das raízes que precisam sem podados, para conter a evolução geracional da produção de violência.
Impossível contar a história do Brasil sem relatar os atos de violência a que vários povos foram submetidos, não somente os nativos, mas também os que para aqui foram trazidos e mantidos de forma violadora.
Somente assim poderemos compreender tragédias como a que fomos testemunhas no dia 12 em Guarapari, e tratar na raiz desse problema que faz parte da nossa história e constituição, enquanto povo.